Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

"À minha querida mamã" por Helena Feital, aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

À minha querida mamã

 

Eis-me aqui em Portugal

Nas terras onde eu nasci

por muito que goste delas

ainda gosto mais de ti.

(26-07-1895)

 

Maman, Mamanm, oú allons nous

Ma belle maman?

 

O semblante sonhador daquele menino sério, parecia envolto numa aura de mistério... É que no seu olhar brilhava, de vez em quando, uma gotinha do mar que se espreguiçava pela sua cara, devagar. Assim como uma lágrima, percebem?

- Pronto! Já passou Fernando, já passou!...

Isto, disse-lhe a maresia que lhe fazia uma festa carinhosa na sua carinha rosada.

E pronto. Em seu lugar sorria agora a alegria de uma criança com vontade de brincar.

O Fernando já tinha sete anos e uma grande imaginação. Assim, começou logo a brincar às cinco pedrinhas com um amigo que viajava no seu coração. E que só ele via.

Já o acompanhava desde Lisboa a vinte de janeiro de 1896, quando embarcou naquele navio que se chamava Funchal e que o deixou na ilha da Madeira. Era no oceano Atlântico!

O Fernando ia com a sua mamã adorada e o querido Tio Taco, que gostava muito dele. E depois, quando deixaram a Madeira já iam num navio muito grande que se chamava SS Hawarden Castle que tinha saído da cidade inglesa de Southampton. O seu destino era Durban, uma cidade que se situava no país que é hoje a Africa do Sul, onde os esperava o seu novo Papá.

Tanto mar que aquele menino ainda tinha para desvendar...

- Olha, são tão bonitos. E tantos!!... São os golfinhos a brincar. Parecem jogar às escondidas. Fazem o pino no seu saltar mais engraçado. São tantas acrobacias no ar! Muito bem!! (e bateu palmas)

Hi, hi, hi, com a cabeça a abanar eles disseram que sim, que sim, que sim. Hi, hi, hi e lá foram embora.

- Está na hora de ir estudar porque a Mamã está a ensinar-me francês, inglês e muitas coisas mais. É como se estivesse na escola.

Maman, Maman, je t’aime beaucoup.

Hoje o céu estava azul acinzentado. Parecia que naquela nuvem escura estava a nascer uma tempestade.

- É melhor ir estudar lá para dentro senão a Mamã fica preocupada comigo.

E quando o jantar acabou, o barco já balançava, balançava, para cima e para baixo. Era assustador! Na caminha quentinha, o Fernando olhou para a Mamã que lhe sorriu com ternura. Para o menino parecia que o mar tinha acalmado e que a trovoada fugia em debandada.

...Tão diferente do “Sino da minha aldeia” que era calmo e alegre.

Bem, o melhor é fechar os olhos e adormecer.  Talvez quando acordares os trovões e os relâmpagos já se tenham ido embora.

No dia seguinte, o Fernando voltou ao convés do navio. O céu estava muito azul. O sol brilhava, tão quentinho. Aquecia a alma. Em redor só se via mar. Já não havia voltar...

Estavam no oceano Índico “O mais misterioso de todos”. Nisto, ouviu-se o grito de uma gaivota que voou com alvoroço, até ficar mesmo ao lado do Fernando.

- Olá (disse a gaivota com o seu piar mais profundo). Como te chamas?

- Chamo-me Fernando. Fernando Pessoa, e sou de Lisboa, em Portugal. Vieste conversar comigo?

- Claro, o que achas? E a tua Mãe onde está?

- A Mamã está ali sentada naquela cadeira a ler. Mas eu sei que ela está sempre a tomar conta de mim.

- Pois sim, pois sim. Desculpa. Que eu agora...

...e abrindo as asas de repente voou para muito alto, deu um salto e aí vem ela veloz...zzzzzzzzzzzz...plááááázz! Trazia no bico um peixe grande que engoliu apressadamente...glup, glup!

- Eu sei que não é bonito falar com o bico cheio mas...glup. Gluuuup! Já engoli. Agora já tenho a barriga cheia.

A tarde foi passando e eles sempre a conversar até que chegou a hora da gaivota ter de voar.

- Adeus Fernando acho que vais ser uma Pessoa muito importante para o mundo.

- Achas?!...(o Fernando riu feliz)

Diz-me o coração que eles ainda se vão ver. Talvez no futuro. Talvez num poema “Quando a alma não é pequena”.

No outro dia o menino acordou muito bem disposto. Tomou o pequeno almoço, conversou com a Mamã e o Tio Taco e depois foi estudar com a Mamã que ensinava tudo muito bem. Daí a pouco tempo chegariam a Durban e Fernando Pessoa iria entrar, em Março, na St. Joseph Convent School.

Lá fora, tendo o sol como um convite à brincadeira, ele empunhou uma espada imaginária, e lá começou a lutar “O Sonho é ver as formas invisíveis”.

Seria com o “Chevalier de Pas” esse seu maior amigo imaginado? Eu não sei, e tu?

 

Chevalier de Pas.jpeg

 

 

 

Então, viveram aventuras de grandes heróis, lutando com a sua espada no ar.

En garde”! Zás, tráááz, tráááz e zááás.

Vennez”! Tráz, zás, tráz, záááás.

Touché”! Venci!! Disse o Fernando a gritar de contente.

Fingindo que estava muito cansado sentou-se a olhar o mar imenso. Já era Fevereiro, depressa iriam chegar a um novo mundo.

Ele já tinha passado pela Cidade do Cabo, por Port Elizabeth (Algon Bay) e ainda por East London. No fim, o seu destino seria Natal, em Durban.

Tinha de ser forte. Estudar muito para ser o melhor. Tinha tantos sonhos!... Nisto, começou a ouvir-se plic, plic, depois plóc, plóc, plic, plôôôônc. Pronto, já estava a chover. Plônc, plic, plooc.

- Vou mas é lá para dentro porque está mais quentinho e não fico molhado.

Mais tarde, quando voltou cá para fora, ele viu bem perto, as baleias. Eram tão grandes! Splash...Brincavam e saltavam como uma flecha que se envolve no mar. Eram tão bonitas com aquela grande barbatana, deslizando suave a indicar-lhe o caminho. Livra! Não é que agora, mesmo junto ao barco, apareceram dois tubarões com um olhar sinistro. E os dentes muito aguçados pareciam querer triturar.

- A mim não. Estou cá em cima. Bem longe de vocês.

O Fernando não imaginava que os tubarões queriam dizer-lhe, e não sabiam como, estas palavras:

- Luta. Estuda muito e vencerás!

Que maravilha. Afinal o menino entendeu tudo. Para si próprio, o Fernando, confirmou com convicção: Já não sou um menino. Sei que quero escrever. Sim, eu quero ser escritor. Quero ser poeta! Quase um profeta, num infinito de lugares mágicos que darei a conhecer ao mundo, com a mesma coragem. E para vocês crianças, irei dizer

 

 

O sol.jpeg

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao anoitecer brincamos às 5 pedrinhas

No degrau da porta da casa,

Graves como convêm a um Deus e a um Poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.”

 

 

 

Este, e tantos, tantos, outros poemas, muito belas, que um dia, tenho a certeza, irás gostar muito de ler.

 

Fim desta história: O Fernando tinha acabado de chegar a Durban – em meados de Fevereiro de 1896.

Ainda hoje e no futuro, Fernando Pessoa continuará a ser um grande poeta. Único e Universal.

 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

 

Já sei, já sei. Vocês querem saber quando é que nasceu Fernando Pessoa?

Nasceu no dia de Sto. António. A 13 de junho de 1888.

 

Nascimento.jpeg

 

 

 

Helena Feital

Junho 2016

publicado por CFP às 17:04
link do post | favorito
Sábado, 23 de Julho de 2016

Vive Sem Horas, Almas Pares, ainda um Verão de artista e call for papers

Ainda há vagas para a oficina no Jardim da Estrela, nas próximas semanas: Modernista, modernista, vais ter um Verão de artista!, um conjunto de actividades para crianças em férias.

Seguem as quintas-feiras de Jazz na Esplanada, com o programa Vive Sem Horas, a nossa parceria com o Hot Clube de Portugal, às 19h00, para os quentes fins de tarde.

No sábado, dia 30, às 15h00, a visita temática é Almas Pares, sobre a relação entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. 

Aos doutorandos que trabalham sobre Fernando Pessoa, reforçamos o apelo para o call for papers: 31 de Agosto é o prazo para enviar propostas para o Congresso Internacional a realizar em Fevereiro de 2017.

Vemo-nos por cá, até breve.

 

 

publicado por CFP às 17:22
link do post | favorito
Sexta-feira, 22 de Julho de 2016

"Quinta da Regaleira …onde a Magia anda no ar" por Helena Feital, aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

Quinta da Regaleira

 …Onde a Magia anda no ar.

 

 

“Do vale á montanha                                                                     

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por casas, por prados

Por quinta e por fonte,

Caminhais aliados.”                                                                

 

poço.jpg                                                                             Fig. 1 - Poço Iniciático

                                                                                                                              

E foi aliados nesta visita inesquecível que partimos por caminhos cheios de magia onde céu, terra e água se encontram num lugar enigmático e sobrenatural.

Logo à entrada tivemos como guia o Dr. António Silvestre que aliava à grande simpatia, um conhecimento vasto e profundo sobre a Quinta da Regaleira e os segredos ocultos nos seus bosques. E, claro, também sobre o Palácio.

Esta propriedade foi adquirida em 1840 por António Augusto de Carvalho Monteiro que, nessa época, a comprou por 25 contos de reis.

Carvalho Monteiro tinha como inspiração um espaço grandioso onde vivesse rodeado pelos símbolos dos seus interesses e ideologias. Ele queria evocar o passado mais glorioso de Portugal, daí a predominância do estilo Neomanuelino com a sua ligação aos descobrimentos e ainda pela arte gótica e alguns elementos clássicos.

Entre 1898 e 1900 dá-se inicio á construção do parque com o edifício dos cocheiros sob os planos do arquiteto cenógrafo italiano, Luigi Manini.

O simbolismo oculto da Quinta da Regaleira é enriquecido com temas esotéricos relacionados com a Alquimia, Maçonaria, Templários e Rosa Cruz.

 

 

Quanto a nós, eis-nos chegados à mitologia clássica que nos dá as boas-vindas na Álea dos Deuses composta pelo alinhamento de estátuas dos deuses Greco-Romanos: Fortuna, Orfeu, Vénus, Flora, Ceres, Pã, Dionísio, Vulcano e Hermes. E ainda, terminando, temos a Estátua do Leão que representa o sol que equivale na alquimia ao ouro.

E quando olho em volta para as árvores frondosas e muitas delas, raras, vejo as plantas de flores luxuriantes e…pareceu-me que tu, Fernando Pessoa, também estavas ali “Cavaleiro Monge” deslumbrado pelo bosque que vai sendo progressivamente mais selvagem até chegar ao topo da Quinta, bem lá no cimo, onde o céu lhe dá abrigo.

E a nossa aventura continua ao vermos a Torre da Regaleira, construída para dar a quem sobe a ilusão de se encontrar no eixo do mundo. Nela vemos os símbolos Manuelinos sobre os descobrimentos dos portugueses.

Logo depois…que lindo este som cristalino! Que pureza há na música d´água caindo em cascata naquele lago. Era o Lago da Cascata. E continuamos, mais e mais sentido o mistério que nos conduz até ao Poço Iniciático – uma escadaria em pedra de 27 metros de profundidade, toda em espiral, sustentada por colunas esculpidas por onde se desce até ao âmago da terra – o fundo do poço. Constituída por 9 patamares separados por lances de 15 degraus, cada um invocando referencias à “Divina Comédia” de Dante e que podem representar os 9 círculos do inferno, do paraíso ou do purgatório. Quando por fim chegamos ao fundo do poço o nosso olhar encontra, embutida em mármore, uma Rosa dos Ventos (estrela de 8 pontas) sobre uma cruz templária que é o emblema heráldico de Carvalho Monteiro e, ao mesmo tempo, indicativo da ordem Rosa Cruz.

O poço diz-se iniciático porque se acredita que era usado em rituais de iniciação à maçonaria. O poço evoca conotações herméticas e alquímicas. Identifica a relação entre a terra e o céu. A saída é feita através de várias galerias ou tuneis, mas só uma nos levará até à luz: ao lago que marca o nosso caminho para o outro lado através das pedras que nos levarão ao simbolismo da redenção. As outras galerias vão dar a outros pontos de grande interesse na Quinta. Quanto a ti, Fernando Pessoa, sei que passaste para a luz na glória da tua obra incomparável.

Mas o poço também quis testar a nossa resistência às provações do tempo. Com a chuva acumulada pela terra, a água caía pelas rochas como uma chuva de verão que caía sobre o nosso corpo. Pelos degraus que pisávamos, também ela nos mostrava o caminho, como se fosse um pequeno ribeiro a saltitar de contente pelas suas maldades. Para nós, foi uma descoberta que vencemos.

Pelo caminho exuberante que nos leva ao Palácio, vemos a beleza da Gruta de Leda – a Deusa da justiça divina. Esta composição escultórica é subordinada ao tema – Leda e o Cisne. Celebram os amores de Leda com Zeus, o Cisne que fecunda Leda. A lenda refere que a pomba que Leda segura na mão simboliza o Espirito Santo. As 3 gerações que estão no centro dos elementos maçónicos representam a Força, a Sabedoria e a Beleza.

Depois encontramos a bela Capela da Santíssima Trindade que tem elementos maçónicos como “O olho de Deus”. A magnífica fachada está centrada no revivalismo gótico e manuelino.

Nela estão representados Santa Tereza de Ávila e Santo António. No meio, a encimar a entrada, está representado o Mistério da Anunciação – o Anjo Gabriel desce à terra para dizer a Maria que ela vai ter um filho do Senhor Deus Pai.

No interior do altar vê-se Jesus depois de ressuscitar a coroar uma mulher. Do lado direito, Santa Tereza e Santo António, desta vez, apresentados em painéis de mosaico. Do lado oposto, um vitral lindíssimo, apresenta-nos o milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho. No chão estão representadas a esfera armilar ou globo celeste e a Cruz da Ordem de Cristo rodeada de pentagramas (estrelas de 5 pontas).

E por fim, chegamos no aconchego acolhedor do Palácio. O edifício principal é marcado pela beleza estética da torre octogonal. Toda a exuberância da decoração interior do Palácio pertence ao arquiteto José da Fonseca.

Comecemos pelo alpendre: a caprichosa ornamentação evoca a epopeia dos Descobrimentos Portugueses e o arquétipo da viagem: A seguir entramos na sala de jantar, com uma lareira monumental, rematada pela escultura do monteiro e onde sobressai o tema da caça. Da policromia do mosaico veneziano, às mísulas da abóbada, transparece o tema do ciclo da vida.

E eis-nos chegados à “Sala dos Reis”, a antiga sala de bilhar onde estão representados 20 reis e 4 rainhas da monarquia portuguesa e, também, os escudos das cidades de Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. Sobre a lareira encontra-se hoje o antigo brasão de Sintra. Aos pisos superiores não fomos. Já era tarde.

Quando regressávamos a Lisboa, durante momentos, ouviu-se o silêncio de cada um de nós, como se estivéssemos revivendo a magia daquele lugar onde Fernando Pessoa foi tantas vezes.

Lembro o final do seu poema sobre a Regaleira, escrito em 24-10/1932.

 

“Do vale à montanha,

Da montanha ao monte

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por quanto é seu fim,

Seu ninguém que o conte,

Caminhais em mim”.[1]

 

[1] Helena Feital

No final de Maio de 2016

 

Fonte bibliográfica: ANES, José Manuel, Os jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira. Lisboa: Ésquilo, 2007.

publicado por CFP às 17:15
link do post | favorito
Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

Coelho da Rocha, 16

Fernando Pessoa nasceu, viveu e morreu em Lisboa. A visita Coelho da Rocha, 16 convida os visitantes a conhecer os múltiplos lugares da cidade pessoana, começando e terminando naquela que foi a sua última casa e a sua última rua.

 

Ou seja, o convite é para conhecer os sítios de Pessoa, sem sair das imediações do número 16 da Rua Coelho da Rocha. Uma visita de e com Luís Miranda (equipa de Museologia e Património da Casa Fernando Pessoa).


Este sábado, 16 de Julho, às 15h00. 

Duração: 90 minutos. Marcação prévia. Lotação limitada, 5€ (com descontos).

 

 

Coelho da Rocha 16_2.jpg

Coelho da Rocha.jpg

 

publicado por CFP às 10:34
link do post | favorito
Terça-feira, 12 de Julho de 2016

Vive Sem Horas | Jazz na Esplanada

Em Julho e Agosto, a Casa Fernando Pessoa volta a combinar jazz e Verão e traz à esplanada Flagrante Delitro diferentes nomes e sons do jazz de Lisboa, numa repetida colaboração com o Hot Clube de Portugal.

Um convite para as horas largas do fim de tarde, em formato intimista, com duos que atravessam as várias gerações dos músicos de jazz portugueses.

CFP Cartaz Jazz na Esplanada 2016.jpg

 

 

 

publicado por CFP às 09:34
link do post | favorito
Segunda-feira, 11 de Julho de 2016

«Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam»

Amanhã, 12 de Julho, no auditório da Casa Fernando Pessoa é lançado O Fio e o Labirinto - A Ficção Policial na obra de Fernando Pessoa, de Ana Maria Freitas, publicado pelas Edições Colibri.

A sessão é de entrada livre e com a participação de Fernando Cabril Martins, Manuela Parreira da Silva e Richard Zenith.

 

o fio e o labirinto.gif

 

Sinpose:

A escrita policial de Fernando Pessoa ocupa um importante lugar na sua obra, pela atenção que o autor lhe dedicou durante décadas, lendo, teorizando e escrevendo. O interesse por este popular género literário manifestou-se cedo, ainda na fase da sua vida em que o inglês era a língua de escrita preferida, com a criação de Tales of a Reasoner, o conjunto dos casos do Ex-Sargeant Byng. Mais tarde, já em português, Pessoa criou o raciocinador Abílio Fernandes Quaresma, cujos casos formam o conjunto com o título Quaresma, Decifrador. O presente ensaio analisa a especificidade do conceito de policial desenvolvido, centrado em Quaresma, uma figura talhada como personalidade literária. Observa ainda a área ficcional da obra de Fernando Pessoa e todo o edifício literário construído em torno do policial.

 

«Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. (...) Um dos volumes de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a ideia de uma chávena de café – trindade cujo seruma é o conjugar a felicidade para mim – resume-se nisto a minha felicidade.»

Era deste modo que Fernando Pessoa descrevia a sua relação com o popular género literário. Levou mais além a felicidade que a leitura lhe proporcionava e escreveu muitas histórias de um policial, pessoano de sua natureza, em que sobressai a figura de Abílio Fernandes Quaresma, decifrador, um “fantasma a errar em salas de recordações” com poder de se transfigurar pelo raciocínio.

publicado por CFP às 12:25
link do post | favorito

Horário de Verão para visitas:

CFP Post Visitas Regulares JUL AGO 16 1.jpg

CFP Post Visitas Regulares JUL AGO 16 4.jpg

 

Categorias:
publicado por CFP às 10:29
link do post | favorito
Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

Fora de Casa e na Casa Fernando Pessoa.

Nos próximos dois meses não estamos de férias. Veja toda a nossa programação para Julho e Agosto seguindo por aqui.

 

publicado por CFP às 18:19
link do post | favorito

"Grande Oriente Lusitano - Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Tolerância" por Helena Feital, aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

Numa colaboração com a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, o curso de Introdução aos Estudos Pessoanos foi desenvolvido especificamente para a Universidade Sénior de Campo de Ourique e tem o objectivo de apresentar as muitas e variadas facetas de Fernando Pessoa enquanto homem e escritor.

 

Quando conhecemos o Grande Oriente Lusitano pela primeira vez e, em simultâneo, o Museu Maçónico Português, fiquei como que rendida ao peso dos seus ideais de vida, tão complexos e tão difíceis de alcançar. Para escrever sobre esta visita precisei de tempo. Tempo para interiorizar, para refletir e dar voz à grande coragem e abnegação de uma cidadania superior.

 

Um Maçon é guardião dos ensinamentos da escola iniciática ocidental, da escola de democracia (herdeira dos gregos) e da utopia do espírito liberal puritano inglês do sec. XVIII, em suma da Tradição, da Ordem, da Regra e da Lei.

 

O Maçon ama a humanidade, faz o bem pelo amor do próprio bem. E exercita a filantropia, sem se proclamar doador.

 

E comecemos pelos seus primórdios em Portugal. Entre 1727 e 1890 a génese da maçonaria portuguesa que foi o Grande Oriente Lusitano, uma das mais antigas e independentes obediências maçónicas europeias sofreu várias e dolorosas perseguições.

 

Com a Inquisição, Pina Manique ordenou que muitos dos seus membros fossem presos, torturados ou até mesmo mortos. Em 1820 acaba a Inquisição e desta forma, finalmente os maçons podem viver à luz do dia.

 

A maçonaria deve aperfeiçoar os homens, para refazerem o mundo possível, com a condição que seja o que deve ser: melhor e mais fraterno. O seu método para o pensamento, princípios e valores têm como dever a busca da verdade. O papel cívico da maçonaria torna-se muito importante nos séculos XIX e XX, dada a forte influência de sua ação em Portugal:

 

  • A Revolução Liberal de 1820
  • A Abolição da pena de morte e da escravatura
  • A Implantação da República em 1910
  • Deve-se-lhe também a criação do sistema de jurados.

 

A sua ação cívica é enorme, tendo como papel preponderante a defesa dos homens e dos seus direitos. Acabar com as desigualdades sociais e, através das suas obras filantrópicas, dar mais força à Liberdade, à Cidadania e à Democracia. Acabar com a exclusão social e dar à educação um papel fulcral na sociedade. Aliás, a educação sempre foi uma das maiores preocupações da maçonaria numa ética universal dos direitos humanos.

 

Ao longo dos tempos o Grande Oriente Lusitano edificou a Academia das Ciências de Lisboa e deu origem a várias escolas primárias (e secundárias) como a do Conde de Ferreira. No séc. XVIII, por causa das perseguições, comunicavam por um alfabeto em código que era composto por nove (quadradinhos) divisões com pontinhos e sem pontinhos. Tão simples como uma máquina de escrever (secreta...) que está em exposição no Museu Maçónico.

 

Sim, a maçonaria deixou marcas profundas na nossa sociedade, seja pelos métodos de avaliação, experimentação ou co-educação, caso da antiga Escola Marquês de Pombal em Lisboa e da Vasco da Gama no Porto.

 

Métodos, equipamentos e trabalhos que são espelho de uma escola de vanguarda e inovação, conjugando a teoria com a prática. As crianças são valorizadas, ao mesmo tempo que lhes são ensinados os valores da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da tolerância.

 

O amor é muito importante nas obras sociais. E foi através desse ideal maçónico que foi fundado o Orfanato de S. João e muitos outros mais. Criaram a Associação dos Inválidos do Comércio e um sem número de outras ações sociais importantes.

 

Quando se estreou a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, o deputado Sr. José Cabral apresentou em 19 de Janeiro de 1935 o projeto de lei para acabar com as “associações secretas”.

 

Opondo-se veementemente a esse projeto, Fernando Pessoa, que não era maçon, escreveu, em 04 de Fevereiro de 1935, um artigo no Diário de Lisboa, em defesa dos direitos e liberdades da maçonaria, com especial destaque para o Grande Oriente Lusitano.

Desse longo artigo lembro dois parágrafos...

“Existem hoje em actividade em todo o mundo, cerca de seis milhões de maçons, dos quais cerca de quatro milhões nos Estados Unidos e cerca de 1 milhão sob as diversas Obediências independentes britânicas. Assim cinco sextos dos maçons hoje em actividade são maçons de fala inglesa. O milhão restante, ou coisa parecida, acha-se repartido pelas Grandes Obediências dos outros países do mundo, das quais a mais importante e influente é talvez o Grande Oriente de França. As obediências maçónicas são potencias autónomas e independentes.

....

A maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita, portanto, a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época, reage, quanto a atitude social, diferentemente. Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria – como aliás qualquer instituição, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme circunstâncias de meio e momentos históricos, de que ela não tem culpa. Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia – a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender.”

A aprovação do Decreto-Lei nº 1901 de 2 de Maio de 1935 proposto pelo Sr. José Cabral dá a Salazar o poder de forçar os membros maçónicos à clandestinidade ou até mesmo à prisão ou ao exilio político. Desta forma, acabou com o Grande Oriente Lusitano sendo os seus bens confiscados e o Palácio Maçónico ocupado pela Legião Portuguesa.

Com a Revolução do 25 de Abril de 1974, o Grande Oriente Lusitano pôde voltar “à luz do dia”, tendo-lhe sido devolvido o Palácio Maçónico e sido paga uma indeminização.

Entre os seus membros contam-se figuras de relevo na História de Portugal.

Durante a nossa visita, fomos à Biblioteca repleta de livros importantes para o conhecimento do que é a maçonaria e o que representa ser maçon. Lá estava, num livro pequeno, o artigo de Fernando Pessoa, com o agradecimento da maçonaria.

Ficámos despois a conhecer algumas das simbologias dogmáticas dos maçons e passámos a ver, detalhadamente os 4 elementos do vestuário que são importantes para os maçons:

  • A Joia que normalmente é de metal mas também pode ser em papel – é distintiva do grau da pessoa: grão-mestre, secretário, guardião, etc. Cada um tem a sua joia especial.
  • O Avental bordado em seda ou em algodão.
  • A Espada – que significa a nobreza.
  • As Luvas Brancas – como proteção.

 

Nas funções iniciáticas não há “trabalho”. Há o Sonho e o Esforço. A ordem de trabalho na Maçonaria chama-se Prancha

Imagem1.jpg

 

 

 

Templo Maçónico

 

A maçonaria construiu o seu templo à imagem do Templo de Salomão.

Os símbolos maçónicos são o triângulo com o Olho de Órus. E o esquadro, normalmente com um braço maior do que o outro. Tem também o compasso. Esquadro e Compasso são as 3 Luzes Maiores.

O Templo Maçónico é o lugar sagrado dedicado às liturgias próprias. Ao entrarmos no Templo vemos que, do lado norte, não há colunas. As colunas internas são as colunas de construção do Templo de Salomão.

  • Dórica (coluna da Força/da Luz)
  • Jónica (coluna da Sabedoria)
  • Coríntica (coluna da Beleza e Luz)

O lado norte das colunas é destinado aos Aprendizes. O lado sul, aos Companheiros e Mestre. Os graus de um maçon são de Vigilante (Venerável que desempenha um cargo importante, porque já teve lugar de mestre). O Irmão Guarda-Interior é quem abre a porta da loja e pede identificação, palavra passe e idade.

A hierarquia maçónica começa pelo Aprendiz. Depois passa a Companheiro. E no cargo principal está o Grão-Mestre. Para os maçons a divindade maior é o Grande Arquitecto do Universo.

As proporções áureas do templo são-nos dadas pelos quadrados pretos e brancos no solo – os quadrados, simbolizam luz e trevas. A posição dos pés e das mãos é tudo simbólico (ângulo reto, simboliza o triângulo). A 4ª coluna normalmente secreta, é a coluna da Luz e Sabedoria.

Ser maçon é como viver num Universo único e universal.

Depois desta visita, penso que todos nós, professor e alunos, ficámos mais ricos; em sabedoria e no conhecimento de outras entidades superiores da nossa sociedade.

Até um dia!

                                                                      

                                                                                

publicado por CFP às 16:09
link do post | favorito
Quarta-feira, 29 de Junho de 2016

Verão na Casa Fernando Pessoa

imagem NL.jpg

 

Esplanada, Jardim da Estrela e até uma casa fora da Casa.                    
A programação deste Verão convida a sair. E a entrar. Uma residência artística, jazz na esplanada e oficinas no jardim – e a Casa Fernando Pessoa de portas abertas.

O folheto com a nossa programação para Julho e Agosto já está na rua. Se não encontrar noutros locais, venha visitar-nos e saber da nossa agenda para os dias mais quentes. 

 

 

 

publicado por CFP às 17:01
link do post | favorito

Informações e contactos

www.casafernandopessoa.pt

Morada:

Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique 1250-088 Lisboa

Tel: 21 391 32 70

@: info@casafernandopessoa.pt

Horário: Segunda a Sábado das 10:00 às 18:00 (última entrada às 17h30)

pesquisar

Categorias

agenda abril 08

agenda abril 09

agenda abril 10

agenda abril 11

agenda abril 12

agenda abril 13

agenda abril 14

agenda dezembro 07

agenda dezembro 08

agenda dezembro 09

agenda dezembro 10

agenda dezembro 11

agenda dezembro 12

agenda dezembro 13

agenda fevereiro 08

agenda fevereiro 09

agenda fevereiro 10

agenda fevereiro 11

agenda fevereiro 12

agenda fevereiro 13

agenda fevereiro 14

agenda janeiro 08

agenda janeiro 09

agenda janeiro 10

agenda janeiro 11

agenda janeiro 12

agenda janeiro 13

agenda janeiro 14

agenda julho 07

agenda julho 08

agenda julho 09

agenda julho 10

agenda julho 11

agenda julho 12

agenda julho 13

agenda julho 14

agenda junho 07

agenda junho 08

agenda junho 09

agenda junho 10

agenda junho 11

agenda junho 12

agenda junho 13

agenda junho 14

agenda maio 08

agenda maio 09

agenda maio 10

agenda maio 11

agenda maio 12

agenda maio 13

agenda maio 14

agenda março 08

agenda março 09

agenda março 10

agenda março 11

agenda março 12

agenda março 13

agenda março 14

agenda novembro 07

agenda novembro 08

agenda novembro 09

agenda novembro 10

agenda novembro 11

agenda novembro 12

agenda novembro 13

agenda novembro 2013

agenda outubro 07

agenda outubro 08

agenda outubro 09

agenda outubro 10

agenda outubro 11

agenda outubro 12

agenda outubro 13

agenda setembro 07

agenda setembro 08

agenda setembro 09

agenda setembro 11

agenda setembro 12

agenda setembro 13

agenda setembro 14

aniversários

biblioteca

casa fernando pessoa

casafernandopessoa

congresso

cursos

exposição

exposições

fernando pessoa

ler agustina

lisboa cidade do livro

mensagem do desassossego

mensagem do dia

o que importa

o que importa 2013

o que importa 2014

poesia

serviço educativo

um poema de amor por dia

uma noite com pessoa

todas as tags

arquivos

Julho 2016

Junho 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

blogs SAPO

subscrever feeds