Terça-feira, 31 de Dezembro de 2013

As coisas do Estado e da cidade não têm mão sobre nós

«As coisas do Estado e da cidade não têm mão sobre nós. Nada nos importa a que os ministros e os áulicos façam falsa gerência das coisas da nação.

Tudo isso se passa lá fora, como a lama nos dias de chuva. Nada temos com isso, que tenha que ver ao mesmo tempo connosco. 

Semelhantemente nos não interessam as grandes convulsões, como a guerra e as crises dos países. Enquanto não entram por nossa casa, nada nos importa a que portas batam. Isto, que parece que se apoia num grande desprezo pelos outros, realmente tem apenas por base o nosso apreço céptico por nós próprios.»

 

in Declaração de Diferença

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Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

O povo nunca é humanitário

«O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios. Quando o povo perde a tradição, quer dizer que se quebrou o laço social; e quando se quebra o laço social, resulta que se quebra o laço social entre a minoria e o povo. E quando se quebra o laço entre a minoria e o povo, acabam a arte e a verdadeira ciência, cessam as agências principais, de cuja existência a civilização deriva.

Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de quem fui ontem? Existir é desmentir-se. Não há nada mais simbólico da vida do que aquelas notícias dos jornais que desmentem hoje o que o próprio jornal disse ontem.»

 

in Reflexões Pessoais

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Domingo, 29 de Dezembro de 2013

O aristocrata é o indivíduo que sente a necessidade de agir diferentemente dos outros

«O aristocrata é o indivíduo que sente a necessidade de agir diferentemente dos outros. Ao passo que o burguês deseja agir conforme à regra geral, o aristocrata pretende o contrário. Ele é o que age por si. Ele é ele, não é os outros, como dizia o Oscar Wilde da maioria da gente. (O fato — singulariza-se pelo traje, aristocracia de nível alfaiático.) O aristocrata é a força desintegrante, do progresso, anarquista. O povo é que é a força conservadora. Na classe média, basilarmente povo, adoptadamente aristocrática, dá-se o equilíbrio de tendências que mostra o estado social, a norma vital da sociedade.»

 

in A Estalagem da Razão

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Sábado, 28 de Dezembro de 2013

Uma grande emoção é excessivamente egoísta

«Uma grande emoção é excessivamente egoísta; chama a si todo o sangue do espírito e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Há três tipos de emoções que produzem boa poesia — emoções fortes mas rápidas, aproveitadas pela arte logo que passam, mas não antes de terem passado; emoções fortes e profundas na recordação que deixam muito tempo depois; e emoções falsas, ou seja, emoções sentidas no intelecto. A base de toda a arte não é a insinceridade, mas uma sinceridade traduzida.»

 

in Heróstrato ou o Futuro da Celebridade

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Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

Há qualquer coisa de sórdido

«Há qualquer coisa de sórdido, e de tanto mais sórdido quanto é ridículo, neste uso, que têm os fracos, de erigir em tragédias do universo as comédias tristes das tragédias próprias.» 

 

in A Educação do Estóico, o Único Manuscrito do Barão de Teive

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Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Os homens podem ser divididos em três grupos ou tipos

«Os homens podem ser divididos em três grupos ou tipos, e a divisão pode obedecer com acerto à divisão tradicional do espírito intelecto, emoção ou sentimento, e vontade. Há homens que são puro intelecto: os filósofos e os cientistas; outros puro sentimento: são os místicos e os profetas, os fundadores passivos de religiões ou os propagadores de sistemas religiosos aceites; há homens que são pura vontade: os estadistas e os guerreiros líderes da indústria enquanto tal, ou do comércio apenas como comércio. Há três tipos mistos: homens de intelecto e sentimento, que são os artistas de todos os géneros; homens de intelecto e vontade, que são os principais estadistas e os construtores de impérios e nações; homens de sentimento e vontade, que são os fundadores e os divulgadores activos das religiões (espirituais ou materiais), os crentes na Mulher Vestida com o Sol e os crentes na democracia.»

 

in Heróstrato ou o Futuro da Celebridade

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Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Se considero com atenção a vida que os homens vivem

«Se considero com atenção a vida que os homens vivem, nada encontro nela que a diference da vida que vivem os animais. Uns e outros são lançados inconscientemente através das coisas e do mundo; uns e outros se entretêm com intervalos; uns e outros percorrem diariamente o mesmo percurso orgânico; uns e outros não pensam para além do que pensam, nem vivem para além do que vivem. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. Nenhum tenta levantar o peso de ser. Os maiores dos homens amam a glória, mas amam-na, não como a uma imortalidade própria, senão como a uma imortalidade abstracta, de que porventura não participem.»

 

in Livro do Desassossego (fragmento 166)

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Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Cada um de nós é uma sociedade inteira

«Cada um de nós é uma sociedade inteira, um bairro todo do Mistério, convém que ao menos tornemos elegante e distinta a vida desse bairro, que nas festas das nossas sensações haja requinte e recato, e pompa sóbria e cortesia nos banquetes dos nossos pensamentos. Em torno a nós poderão as outras almas erguerem-se os seus bairros sujos e pobres; marquemos nitidamente onde o nosso acaba e começa, e que desde a frontaria dos nossos prédios até às alcovas das nossas timidezes, tudo seja fidalgo e sereno, esculpido numa elegância ou surdina de exibição.»

 

in Livro do Desassossego (fragmento 428)

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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Novo ciclo de conversas

publicado por CFP às 16:54
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O tédio do constantemente novo

«O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vive só de mexer-se. 

Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma. 

Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste. 

Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa liteira dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.»

 

in Livro do Desassossego (fragmento 122)

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publicado por CFP às 11:49
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