Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

E o ano da morte de Ricardo Reis

 

Helena Feital* 

 

Depois da visita à Fundação José Saramago

 

Sentia-me como num palco vazio de emoções. Como começar ao fim de tanto tempo? E de repente evoco as pessoas, os seus ideais, os pensamentos, memórias e obras que, de tão fortes, rompem espaço no meu pensamento e já me pertencem.

Estou mesmo ali há alguns meses atrás, na nossa visita à Fundação José Saramago.

Tão perto do rio Tejo, uma pequena oliveira dá-nos as boas-vindas à célebre “Casa dos Bicos”. À entrada esperava-nos uma surpresa arqueológica de várias escavações: este é o museu que nos dá a conhecer diversas fases da evolução desta parcela ribeirinha, entre o período romano e a atualidade. Sim, aqui descobrimos pormenores, daquela mítica cidade romana a “Olissipo”.

No traçado da muralha medieval que integra neste local, a antiga muralha romana. Ao longo dos tempos, várias alterações são-nos dadas através dos materiais e métodos de construção que nos trazem até aos dias de hoje.

Dessas intervenções arqueológicas, destacamos os objetos usados diariamente na “Casa dos Bicos”, antes do terramoto de 1755 e que estão em exposição.

E agora sim, com o nosso guia Dr. Sérgio Letria, confesso admirador e profundo conhecedor da obra de José Saramago, vamos desvendar o mundo do nosso Prémio Nobel da Literatura e a sua Exposição Permanente: A Semente e os Frutos.

Como num flash vi imediatamente a origem deste título: A semente era a escrita mágica de um homem polémico, terno e sarcástico, demolidor e pertinaz nas suas críticas à moral e à ordem estabelecida pelo poder vigente. Não! Aos governos opressores de todo o mundo. Não! À pobreza. Não! Ao servilismo. Não! Ao clero hermético e sem espirito de luz humanista.

Sim! À mão amiga estendida a todos os trabalhadores injustiçados. Sim! Às regalias sociais e à igualdade.

A intervenção ávida de José Saramago em defesa da liberdade dos direitos e da inclusão social, tinha por dever construir uma realidade mais justa, mais humana. E foi essa a mensagem que José Saramago nos deixou na sua obra incomparável…Os Frutos.

Diante dos meus olhos inquietos pelo saber, veio a descoberta de uma infinidade de livros e documentos que englobavam desde a Literatura à Poesia, do Teatro ao Conto, das Crónicas aos Diários e Ensaios, não esquecendo os Livros Infantojuvenis. Eram 57 títulos “falados”, a maioria deles, em 40 línguas, cujo sucesso lhe fizeram conquistar o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Era a dimensão universal do seu talento e do seu trabalho.

Agora, parece-me que é chegado o momento de dar vida ao subtítulo desta crónica…”O ano da morte de Ricardo Reis”. Porquê este e não outro livro? Porque para mim ficou, desde a primeira página, a descoberta da admiração e do interesse indelével, quase “pele com pele”, de José Saramago por esse génio que é Fernando Pessoa. E isso emudeceu-me.

E quanto mais páginas eu relia, mais agarrada ficava àquela “personagem” de Fernando Pessoa – um dos seus 3 heterónimos – Ricardo Reis, o poeta dos deuses. De quem Fernando Pessoa não havia escrito o ano da sua morte: vivia exilado no Brasil…

 

“…E ali estava Ricardo Reis, encostado a um candeeiro no Alto da Calçada do Combro, lendo num jornal a notícia Fernando Pessoa o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacional dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis, pronto já cá faltava o erro, a desatenção, o escrever por ouvir dizer, quando muito bem sabemos nós que Ricardo Reis é sim este homem que está lendo o jornal com os seus próprios olhos abertos e bem vivos”. Mais à frente li que “parece que Lisboa é feita de algodão pingando|…|Ricardo Reis meteu a chave na fechadura, abriu e…sentado

no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente…era Fernando Pessoa que disse, Olá.”

 

Fernando Pessoa que tinha ido a sepultar na véspera, como era possível? Lembrei-me de um pensamento de Fernando Pessoa “nós quando sonhamos é que somos completamente livres, atingimos o conhecimento, a verdade e o absoluto.” Porque “a mente espiritualiza a matéria!”

 

E se…e se eu, naquele momento, estivesse passando pelo Martinho da Arcada e os visse, Fernando Pessoa e José Saramago sentados naquela mesa de Fernando Pessoa a conversarem?

- Então você conseguiu, com a sua obra ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Grande Feito! 

- Você também o teria merecido e, ganho, se tivesse vivido mais tempo.

- Talvez, realmente a improbabilidade do espirito eterniza a obra. Mas, você sabe, eu cheguei a privar com o nosso outro Prémio Nobel.

- O Dr. Egas Moniz?

- Sim. Era um espírito enorme e maravilhoso, um pessimista filosófico de muito grande categoria. O seu conhecimento científico era magnífico.

- As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retêm-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.

- Você tem razão. Mas diga-me, que ideia tão ardilosa foi essa de transformar a deusa Lídia numa mulher? O desejo carnal de Ricardo Reis sucumbiu-lhe.

- Você gostou?

- Claro. Ela apareceu numa época em que Ricardo Reis estava mais vulnerável. E perdido.

- E que me diz daquele final?

- Aquele em que o meu tempo de estar na terra acabava aqui. Já tinham passado os meus nove meses de saudade.

 

- “Então vamos, disse Fernando Pessoa. Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.”

No infinito da razão e do sonho, eles encontraram-se. E terão todo o tempo do Além para eternizar a palavra “sendo espetadores do espetáculo do mundo”.

Viajei e voltei. Estou novamente aqui na Fundação Saramago a ver um dos últimos filmes realizados em Lanzarote. Entrei novamente no sonho…Este foi o amor-paixão que se sublimou na admiração mútua, sente-se um amor terno, cúmplice, que é muito mais intenso e duradouro do que o amor carnal, por isso perene.

No silêncio que nasce nas palavras profundas, no agitar do vento, talvez agreste, talvez distante. No partilhar a vida, uma casa, uma paisagem imensa de rochas vulcânicas, onde se reflete a vida de dois seres, num abraço em consonância com o universo.

Se eu pudesse acabar como me dita o coração, falaria de amor.

 

 

 

 

As Palavras de Amor

 

Esqueçamos as palavras, as palavras,

As ternas, caprichosas, violentas,

As suaves de mel, as obscenas,

As de febre, as famintas e sedentas.

 

Deixemos que o silêncio dê sentido

Ao pulsar do meu sangue no teu ventre

Que palavras ou discursos poderia

Dizer amar na língua de semente?

José Saramago

 

Sossega Coração

 

Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,

Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,

Atingirás a perfeição de seres.

 

Mas pobre sonho o que quer só não tê-lo!

Pobre esperança a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo

E em si mesmo se sente diferente,

Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

 

Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.

Quer só a noite plácida e enorme,

A grande, universal, solene pausa

Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

 

Agora o meu espírito respira como em ação de graças. Foram momentos vividos muito intensamente. Oxalá eles tenham compreendido e desculpado a minha intromissão. E não esqueço que…

“A nossa grande tarefa está em conseguirmo-nos tornar mais humanos.”

 

* aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

 

 

 

 

 

publicado por CFP às 13:11
link do post | favorito

Informações e contactos

www.casafernandopessoa.pt

Morada:

Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique 1250-088 Lisboa

Tel: 21 391 32 70

@: info@casafernandopessoa.pt

Horário: Segunda a Sábado das 10:00 às 18:00 (última entrada às 17h30)

pesquisar

Categorias

a seguir

agenda abril 08

agenda abril 09

agenda abril 10

agenda abril 11

agenda abril 12

agenda abril 13

agenda abril 14

agenda dezembro 07

agenda dezembro 08

agenda dezembro 09

agenda dezembro 10

agenda dezembro 11

agenda dezembro 12

agenda dezembro 13

agenda fevereiro 08

agenda fevereiro 09

agenda fevereiro 10

agenda fevereiro 11

agenda fevereiro 12

agenda fevereiro 13

agenda fevereiro 14

agenda janeiro 08

agenda janeiro 09

agenda janeiro 10

agenda janeiro 11

agenda janeiro 12

agenda janeiro 13

agenda janeiro 14

agenda julho 07

agenda julho 08

agenda julho 09

agenda julho 10

agenda julho 11

agenda julho 12

agenda julho 13

agenda julho 14

agenda junho 07

agenda junho 08

agenda junho 09

agenda junho 10

agenda junho 11

agenda junho 12

agenda junho 13

agenda junho 14

agenda maio 08

agenda maio 09

agenda maio 10

agenda maio 11

agenda maio 12

agenda maio 13

agenda maio 14

agenda março 08

agenda março 09

agenda março 10

agenda março 11

agenda março 12

agenda março 13

agenda março 14

agenda novembro 07

agenda novembro 08

agenda novembro 09

agenda novembro 10

agenda novembro 11

agenda novembro 12

agenda novembro 13

agenda novembro 2013

agenda outubro 07

agenda outubro 08

agenda outubro 09

agenda outubro 10

agenda outubro 11

agenda outubro 12

agenda outubro 13

agenda setembro 07

agenda setembro 08

agenda setembro 09

agenda setembro 11

agenda setembro 13

agenda setembro 14

biblioteca

casa fernando pessoa

casafernandopessoa

congresso

cursos

editorial

exposição

exposições

fernando pessoa

ler agustina

lisboa cidade do livro

mensagem do desassossego

mensagem do dia

o que importa

o que importa 2013

o que importa 2014

poesia

serviço educativo

um poema de amor por dia

uma noite com pessoa

todas as tags

arquivos

Outubro 2017

Maio 2017

Março 2017

Janeiro 2017

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

blogs SAPO

subscrever feeds