Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 1

Iniciamos hoje a publicação dos textos seleccionados no âmbito da iniciativa O que importa e debatidos na presença do público no passado dia 24 de Abril.

 

O QUE IMPORTA? ESCREVER 0 MEU LIVRO DO DESASSOSSEGO!

 

1. Leituras & escrita

Alguém, que a memória me não deixou fixar, disse-me, em conversa informal, que nós somos os livros que lemos. De facto, este bibliómano tem duas certezas, uma é a de a vida ser curta para que se consiga ler tantos livros tão interessantes e úteis, a outra é a de que a vida é igualmente curta para que se consiga escrever sobre a permanente transfiguração do mundo, porque como diria o poeta “O mundo é uma bola colorida que pula e avança…” e nós somos simples mortais. Constataremos, então, caro Pessoa, que este mundo não pode ser transformado em Literatura!

 Algumas das leituras que fiz, foram exclusivamente lúdicas, como se o acto de abrir um livro, me conduzisse obrigatoriamente ao Paraíso, esquecendo-me do mundo; outras foram iniciadas por necessidade profissional. É que isto de se ser professor, torna-nos leitores compulsivos e o problema é que tomamos o gosto a esse estado incaracterístico. Depois das leituras, começa a fervilhar em nós a vontade de escrever. Tudo porque ler não é nada (já alguém o tinha dito] e escrever é tudo! Todos os textos que escrevemos e que germinam do nosso desassossego, acabam por ser novos seres que nascem de nós próprios. Todos eles são novos filhos que fazemos miraculosamente nascer, num acto inacreditavelmente hermafrodita. A ficção é [realmente] este mundo fantástico, no qual nos perdemos e, através dele, podemos ir muito além da realidade, vivendo a vida que outros viveram. Sem nada ocultar vos digo, que um dos meus grandes prazeres, aquele que me conduz à voragem das sensações, é o de construir histórias, adorná-las com novas personagens, encontrar as linhas de oposição e as de adjuvância, procurando surpreender o leitor, sempre que procuro inventar novos estatutos para os “meus” narradores e encontro [supostamente] um discurso e um estilo próprios. Escrevo, apago, modifico, como Sisífo o faria. É esta nossa fusão com o papel e a caneta (de que fala Ramos Rosa) que torna o acto de escrever tão fascinante e tão absorvente e que nos faz produzir um universo… que é plural!

 

2. Bibliómano

Na infância o paraíso era um bom livro e um quarto onde o lesse. Hoje esse quarto já não existe, porque está preenchido de livros. Contudo, esse quarto continua a ser um paraíso. É nele que descanso…como diria Saramago!

 

3. A escrita

 A escrita tem-se revelado uma amiga próxima. Confidente nos piores momentos, prazer obsessivo nos melhores. Foi devido a ela que nunca abdiquei de nada…embora já tenha tido vontade de fazer tudo do pior, como consideraria Herberto Hélder!

 

4. Ensinar

Desde há dezoito anos que ensino, que educo, tentando conduzir (educare) os meus alunos à fonte do saber. Por vezes tento ser o professor (o que professa as suas matérias), noutras o doutor (o conhecedor), em algumas ocasiões finjo ser o sofredor. E tudo isto, confesso… por amor ao próximo!

 

5. O riso

Mil setecentos e setenta: o futuro do passado. Por esta altura, Sebastien-Roch Nicolas lia, nos luxuosos e quase etéreos salões franceses, as suas máximas e pensamentos. Uma ficou na memória daquele grupo de cortesãos, vestidos de forma espampanante: "Um dia perdido é aquele em que não nos rimos". Esta frase ficou para a eternidade e facilmente se memoriza, porque sem riso não há vida. Sem ele, a vida deixa de ser…oblíqua!

 

6. Subverter & sorrir

Subverter textos e depois…sorrir. Nesses exercícios de escrita, gasto muito do meu tempo! Desconstruir e apresentar alternativas para os finais de obras clássicas, refazer sinopses, reescrever poemas e cartas. Imitei, é certo, James Finn Garner, mas acostumei-me a fazer sorrir os meus [poucos] leitores. E, pensei, isto é fantástico! E pensei, é para eles que escrevo! Escrevi, então, a “Carta da Génese dos Antónios” e uma pseudo-carta de Fernando Pessoa a um professor. Por veneração à…mensagem de Pessoa: a do inconformismo! Nele me revejo, porque sempre tive um ar lutuoso, mas no meu novelo interior (tal como tinha no de Pessoa) o riso tem importância crucial.

 

7. A minha viagem à Índia

 A minha viagem à Índia [o meu Oriente] é imaginária. Uma viagem imaginária influenciada por Joyce, ou por Xavier de Maistre. A divulgação do meu Quinto Império não é imaginária, porque todos os dias o faço e é assim que chego à Índia e à China…sem lá chegar.

 

8. A Ilha dos Amores
O prémio de Pessoa, a sua Ilha dos Amores, foi o contrariar a sua neurastenia, dando-se a conhecer aos outros…pelo nome de outros. Um dos seus actos de amor foi o de criar a Íbis. Ele que também foi [surpreendentemente] Álvaro de Campos…e mais uma multidão. Persistiu admiravelmente, escreveu obsessivamente (tal como Vergílio Ferreira, que entrou no Paraíso a escrever) e, por isso, o admiro cada vez mais. Quem dera ter essa bulimia e essa arte!

 

9. O sacerdote…das letras

Confesso a minha não-vocação! Pessoa, esse sim, foi um verdadeiro sacerdote das letras. Abdicou de tudo o que poderia ter tido em seu favor. Mas o que teve lhe bastou: uma série de irmãos de escrita (brothers of writing) que falavam por ele. Por isso, nunca esteve só.

 

10. Inteligência

 Naquela cabeça certamente fervilharam milhares de pensamentos. Que pena só termos tido acesso aos que foi guardando na sua arca! Esta arca foi verdadeiramente de Noé, para nós, portugueses, para vós, brasileiros, para vós, sul-africanos. Quem dera ter uma arca assim!

 

CARLOS FERNANDES MARQUES

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publicado por CFP às 18:07
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