Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 3

Diz Sebald em “Os anéis de Saturno” que “escrever é a única maneira de me defender das recordações” e, por isso, porque ao guardá-las cá dentro elas se desfiguram numa amálgama de instantes desconexos e se configuram a seu belo prazer, me decido hoje a deixar no papel algumas tentativas de reconstituição de um tempo de horas lentas e melancólicas, subitamente iluminado pela tomada de consciência do propósito que me havia de guiar.

Pertencendo a uma discreta família classe média que vivia do trabalho intelectual, e neta de um histórico republicano maçon inconformado e inquieto, eu percebera desde cedo que o mundo tinha uma história e era grande, instável e perigoso. Compreendera que a justiça e a igualdade entre os homens dependiam de quem mandava e, pior que tudo, que neste país, no meu país, o poder estava nas mãos de poucos e violentos. Que se prendia, torturava e matava quem se lhes opusesse. Que era perigoso dizer o que se pensava. Que em tudo era preciso cautela. Sabia-o por conversas indirectas. As histórias trágicas de prisões e mortes eram sussurradas entre adultos, que os ensinamentos para a infância lá em casa, exaltavam o trabalho e a honradez num manto vigilante e disciplinador. E havia como que um fio a ligar a casa à escola, o fio da obediência, da hierarquia dos poderes, do recato e domesticidade feminina, da renúncia ao prazer. O proibido envolvia, como uma auréola ameaçadora, os dois exíguos espaços do quotidiano.

Foi assim que, à beira dos 15 anos, eu sabia muito pouco sobre o que dividia os homens e as nações, mas tinha a certeza de que havia em mim uma semente de revolta que precisava de adubo para se manifestar. Ora, o ano de 1961 foi fértil em momentos de excitação e expectativa. Chegava lá a casa uma sucessão de notícias espantosas que enchiam os corações de esperança. Acontecimentos perturbadores da ordem estabelecida. Foi o assalto ao Sta Maria na operação Dulcineia que me tocou especialmente. Crescera em mim, durante anos, uma certa ternura pelo Henrique Galvão, eternamente preso pela polícia política através das chamadas medidas de segurança e que, contava o meu avô que o visitava, vivia na prisão com um pardal que o acompanhava. Nesse ano, o corajoso político tinha passado à acção de forma tão radical e aventureira que, para mim, se fez herói. Foi também nesse mesmo ano que se iniciou a luta pela independência em Angola, que o ministro da defesa tentou um simulacro de golpe de estado, que os territórios na Índia passaram para a União indiana, e que eclodiu uma tentativa de revolta no quartel de Beja. Por cada notícia destas as vidas ficavam suspensas, suspensas no tempo de todas as possibilidades.

Nesse mesmo ano integrei a pró-associação dos liceus de Lisboa. Trago ainda comigo a lembrança da emoção que senti aquando da primeira reunião. Os jovens e as jovens da minha idade ou pouco mais velhos pareciam tão sabedores e inteligentes que abalavam e reconstruiam as minhas concepções, obrigando-me a interpretações mais elaboradas. Quando a reunião terminou, eu já não era a mesma, havia coisas novas em mim e um enorme entusiasmo. Muitas mais reuniões e encontros se seguiram, redacção e distribuição de comunicados na escola e tudo às escondidas, mentindo aos pais,“vou estudar para casa de uma amiga”, e eles acreditavam ou fingiam acreditar. Concedia a mim mesma o direito de mentir.

Em 62, o movimento estudantil toma proporções inimagináveis. Um vizinho da família e aluno na faculdade de direito entrava-nos casa dentro para contar as últimas. A concentração dos estudantes e a ocupação da cidade universitária pela polícia de choque, as posições do Marcelo Caetano, a carga policial e sequente greve em massa na cantina, as detenções de vários estudantes. A minha mãe, sentada no sofá, entusiasmava-se, era outra vez o pai a correr com o rei, era a verdadeira república de volta. As poucas referências na imprensa eram revoltantes. O pessoal do regime desorientava-se entre o assombro de ter filhos envolvidos na contestação e a propagação de aleivosias sobre o comportamento das raparigas estudantes na cantina ocupada. O meu pai franzia o sobrolho, desagradado. E eu a querer ir aos plenários e a ter de mentir e a desejar espreitar à noite uma RIA, sem mentira que me valesse. Nas aulas, era como se nada estivesse a acontecer. Tudo, espaço e gente, se comportava e interagia como sempre. Atrevi-me, com uma colega, a distribuir panfletos. Uma hora depois, todos os papéis se encontravam, muito arrumadinhos, na secretária da directora, que nos chamara para nos prevenir que era melhor não repetir o arrojo. Ninguém se referiu ao facto, nem professores, nem colegas. Todos ordeiros, disciplinados, quiçá assombrados. E a consciência política foi-se transformando em acção mais organizada. Entrei na faculdade onde as associações de estudantes eram como lava em ebulição.

Em 65, as prisões de muitos estudantes contribuíram para uma maior politização, e as manifestações de rua, assumidas como resistência e contestação à ditadura, eram o brado de uma juventude corajosa que não queria participar numa guerra fratricida, e se dispunha a lutar por um país mais justo e igualitário.

Ficou-me uma certa nostalgia desse tempo. Perguntava-se, num livro que não recordo, se se pode sentir nostalgia por um tempo de pobreza, de intolerância, de prepotência, de injustiça. É um misto de nostalgia e mal-estar. A verdade é que foi neste meu tempo de névoas que em mim se forjaram os sentimentos de solidariedade e cumplicidade com muitos para quem ainda hoje olho com ternura, e que foi também o tempo em que, com a soma dos medos, aprendi a coragem.

 

GRAÇA ANÍBAL

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publicado por CFP às 16:11
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