Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

Dia Triunfal de Fernando Pessoa

Helena Freital* 

 

«Sinto que vivemos realidades paralelas: hoje, escrevo novamente sobre ti, Fernando Pessoa, mas, de uma paisagem diferente. Atravessei o tempo!

…E de 2016 fui até 1914. 8 de Março de 1914.

Desse lado do tempo, arrancavas de ti um turbilhão de emoções.

Sim, hoje vais finalmente encontrar “O meu drama em gente”.

Ao teu lado, na minha pequenez, sinto-me estremecer sobre o peso dessa raiva. Desse desassossego, dessa beleza criadora, desse amar das gentes que habitam em ti.

E ouço o teu pensamento:

…Esta inquietação não me larga. Sinto-me arrastado pelo seu frenesim. É como uma chama que arde dentro de mim… já há tanto tempo!...

Não quero este arame farpado que me rasga as ideias em pequenos pedaços de papel, que vou guardando, na minha arca sagrada. Hoje quero dar-lhes a vida!

São os meus irmãos de alma, irmãos em cada letra escrita com o meu sangue. Os meus 3 heterónimos. Que eu, duma maneira tão entranhada, já lhes sinto o pulsar. E vejo: ALBERTO CAEIRO. O primeiro. O Mestre. Aquele de quem tu dirás:

“Uns agem sobre os homens como o Fogo que queima neles e os deixa nus e reais, próprios e verídicos e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça. Caeiro teve essa força”.

Naquele momento o êxtase começou…

O GUARDADOR DE REBANHOS

“Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do Sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

 

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso”.

 

..E de repente, sinto os espinhos dessas estradas perdidas, rasgando o teu pensamento. Com um sorriso…

 

“Aparecera em mim o meu mestre.

  Então, peguei noutro papel e escrevi a fio a “Chuva Oblíqua.”

 

Era a resposta de Fernando Pessoa e do seu génio magistral…brilhando no firmamento de um papel.

 

CHUVA OBLÍQUA

 

“Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,

E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

 

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,

E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

 

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes

Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...

 

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça

E sente-se chiar a água no facto de haver coro... (…)

 

(…) E apagam-se as luzes da igreja

Na chuva que cessa...”

 

Meu Deus, há tantas pessoas dentro de ti!...

Eu que apenas sei de ti o que me fazes viver… sinto uma enorme admiração. Foi um encontro de almas há muito desejado que se encontra aqui. Foram 30 e tal poemas que passaram voando por mim.

 

“Depois tratei logo de descobrir uns discípulos de Alberto Caeiro. Num jacto, e à máquina de escrever sem interrupção, nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de ÁLVARO DE CAMPOS. Parece que tudo se passou independente de mim.”

 

ODE TRIUNFAL

(…) “Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (…)

 

(…) Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!

Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento

A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável” (…)

 

E, agora que dizer? Era mais “um génio” que tu puseste à solta!

 

Criado a partir de Alberto Caeiro, nasceu RICARDO REIS

“Era como um sonho dentro de um sonho”.

Ou, se preferires, “o Horácio grego que escreve em Português”.

VEM SENTAR-TE COMIGO, LÍDIA, À BEIRA DO RIO.

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

                (Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

                Mais longe que os deuses. (…)

 

(…) Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

                E sempre iria ter ao mar.”

 

“Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim… 8 de março de 1914.

Parece que tudo se passou independente de mim.”

 

Chegaste ao fim da exaustão com a alma limpa!

Foram cerca de 13 horas seguidas, em pé, a escreveres na tua velha e fiel companheira… a tua máquina de escrever que está em cima da tua pequena cómoda.

Fernando Pessoa, tu és o meu herói! Contigo, sinto que ser poeta é transcendermos o nosso corpo e, por fim, encontrarmos uma alma de eleição. E o céu tem uma dimensão maior! A tua! Porque a imortalidade está ao teu alcance.

Contigo deixei voar a imaginação…Por isso te digo, desculpa Fernando Pessoa, se nesta conversa ficaram perdidos alguns pedaços de mim.

 

 9 Novembro 2016»

 

* aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

 

publicado por CFP às 10:03
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