Terça-feira, 6 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 2

 QUE IMPORTA

“Sê plural como o universo”

Era o horário nobre da TV e um programa de grandes audiências. O entrevistador, reputado pela grande experiência televisiva, num último olhar para dentro perscrutava a acutilância das suas perguntas, o arrojo da sua visão e passando a mão pelo cabelo, dirigiu-se, com um ar complacente e amistoso ao entrevistado. Do que me recordo hoje, as perguntas são próximas das reais… já as respostas, essas, li-as eu no olhar do artista de dimensão enorme, perante quem dava vontade de cair aos pés e agradecer a Obra… a dádiva… mas que, por vezes incrédulo … outras, quase envergonhado, tacteava o que responder. 

 

“É com imenso prazer que recebo no meu programa um artista com a sua projecção internacional e já quase uma relíquia pertencente a uma geração de artistas do início do Sec. XX, dos quais já não nos sobram, infelizmente, muitos testemunhos.  

“Obrigado” respondeu um sorriso desprendido e um olhar vago de quem, com distanciamento ou quase desinteresse, aguarda o que lhe vai ser perguntado. 

 

“Como foi nascer no início do Sec. XX no seio de uma família abastada?  

Nasci há um seculo atrás como ainda se nasce hoje, expelido com urgência de um ventre onde não mais se pode ficar… e aqui estou inteiro! Do resto não me recordo… mas creio que deve ter sido confortável!” 

 

“Mas um nome de família já é um empurrão numa carreira, especialmente no início e no mundo das artes tão difícil de singrar!...  

“Sim, a minha família abriu-me muitas portas, é claro, mas a minha obra tratou de fechar algumas (porque chocou, decepcionou, desagradou a quem delas não se apaixonou) e abriu outras por seu próprio punho. A obra ganha vida própria, sabe?! Qual heterónimo… e faz o que lhe dá na gana. E, não há dinheiro, material, condições e criem uma Obra. Há obras que nascem dentro da mente humana, no desdobramento da sua alma e se exteriorizam pelo material, dinheiro, condições, que o artista tiver disponível… até de lixo podem ser feitas! 

O meu nome foi ficando à sombra e a mando do nome de qualquer das minhas obras… já o da minha família… esse recebeu de braços abertos todos os amigos que a obra congrega…a fama, o prestígio internacional, a fortuna…” e sorriu. 

 

Em tratando-se de um autor português como vê a projecção internacional da sua obra? Como é estar ao lado dos grandes nomes da arte mundial?  

“Português?!”... “Ah, sim!!!..”. Parou… pensou, deve querer dizer quase um deficiente, sofrendo desse complexo de inferioridade anquilosante que impede os portuguese de se verem como iguais aos cidadãos do Mundo? ...mas lançou um: “Possivelmente porque a obra fala por si, ninguém notou que é portuguesa!” e deu uma gargalhada. “A obra tem realmente a sua própria linguagem. A linguagem é o molde das ideias. Alargar a linguagem, criar novas linguagens, decifrar novos idiomas, sejam elas verbais, gestuais, imagens ou sons…. É alargar o espaço de gestação de ideias… é o verdadeiro exercício de Humanidade. Essas novas linguagens não têm fronteiras… não são portuguesas, inglesas ou chinesas… são universais.” 

 

Diz-se muitas vezes que as suas obras têm registos muito diferentes, passou por muitas fases… em qual delas se encontrou verdadeiramente?  

“Em todas. Não compreendo aqueles que têm uma obra constante, sempre coerente. O Homem moderno é vário e não uno, é um heterónimo em cada peça, em cada trabalho, idealmente em cada dia! Diz Pessoa qualquer coisa como isto: viver dois dias iguais é viver a morte no segundo dia, pois o primeiro já foi vivido. Assim… porquê repeti-lo? Viver é experimentar a cada dia um pouco mais do Universo que nos é dado experimentar á nascença, como uma promessa! Porquê não esgotar as possibilidades no tempo que nos é dado? É como entrar num parque de diversões e ficar o tempo todo num só entretenimento. Antes sentarmo-nos na esplanada do parque e observar como as pessoas que se passam e ver como se comportam, vivem, os vários entretenimentos. Antes pensar e intelectualizar as sensações alheias… múltiplas… contraditórias… do que sentir na própria pele uma só sensação, repetida, repetida e repetidamente. Uma obra de vida não é coerente, nem uniforme… se o for não é de um artista.” 

 

Apesar de uma obra imensa, poucas foram as afluências aos seus eventos, foi proveitoso ou economicamente viável viver da sua arte? Alguma vez pensou desistir e fazer outra coisa?  

Bom…foi difícil às vezes…” uma ligeira sombra de vergonha…” mas, nunca entendi de dinheiros… e não é a meu ver o melhor prémio de um artista.” 

 

Então qual é o melhor prémio? O reconhecimento dos críticos? Das massas? A Fama?  

“Todos têm o seu sabor… doce… e acariciam o ego… mas não são o maior dos prémios. A obra não é algo que se faça por imposição do exterior – a demanda por dinheiro, posição social, notoriedade, nem a necessidade do afecto e atenção alheios - a obra é o vício do artista… é a sua necessidade suprema… é a sua adição, totalmente interior e egoísta. Ela existe por si própria mesmo antes de se consumar em matéria…. Ela impõe-se ao seu autor… exige ser expelida das suas entranhas, qual bebé exige sair do ventre materno onde não pode mais ficar. A obra é o heterónimo que exige viver! 

Assim, o prémio supremo do artista é a consumação da Obra… é dar-lhe vida… e deixá-la existir! Lembra-se.. Ayn Rand, “The Fountainhead”... Howard Roark?…  

 

Claro!... Mas e agora, na recta final da sua vida, o que gostaria de fazer para fechar o ciclo, a sua obra?  

“Não me queira fechar já, tão pronto, faz-me temer o pior!” Risos. “Só me poderia fechar a mim, pois a obra nunca pode ser fechada, nem ser coerente, nem ter principio meio e fim. O autor enquanto criador, vivo, neste universo sempre múltiplo, não pode deixar de se multiplicar para se conhecer e conhecer o mundo… o “essencial do real”. Fechar é desistir… é não mais renascer… pior que morrer… é estupidificar! 

 

Então continuará sempre a inovar… a buscar? E para o ano acredita ainda estar cá?  

Eu?.. O que importa?... A minha obra estará. 

 

Ana Teresa Soares Gomes

Categorias:
publicado por CFP às 18:02
link do post | favorito

Informações e contactos

www.casafernandopessoa.pt

Morada:

Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique 1250-088 Lisboa

Tel: 21 391 32 70

@: info@casafernandopessoa.pt

Horário: Segunda a Sábado das 10:00 às 18:00 (última entrada às 17h30)

pesquisar

Categorias

a seguir

agenda abril 08

agenda abril 09

agenda abril 10

agenda abril 11

agenda abril 12

agenda abril 13

agenda abril 14

agenda dezembro 07

agenda dezembro 08

agenda dezembro 09

agenda dezembro 10

agenda dezembro 11

agenda dezembro 12

agenda dezembro 13

agenda fevereiro 08

agenda fevereiro 09

agenda fevereiro 10

agenda fevereiro 11

agenda fevereiro 12

agenda fevereiro 13

agenda fevereiro 14

agenda janeiro 08

agenda janeiro 09

agenda janeiro 10

agenda janeiro 11

agenda janeiro 12

agenda janeiro 13

agenda janeiro 14

agenda julho 07

agenda julho 08

agenda julho 09

agenda julho 10

agenda julho 11

agenda julho 12

agenda julho 13

agenda julho 14

agenda junho 07

agenda junho 08

agenda junho 09

agenda junho 10

agenda junho 11

agenda junho 12

agenda junho 13

agenda junho 14

agenda maio 08

agenda maio 09

agenda maio 10

agenda maio 11

agenda maio 12

agenda maio 13

agenda maio 14

agenda março 08

agenda março 09

agenda março 10

agenda março 11

agenda março 12

agenda março 13

agenda março 14

agenda novembro 07

agenda novembro 08

agenda novembro 09

agenda novembro 10

agenda novembro 11

agenda novembro 12

agenda novembro 13

agenda novembro 2013

agenda outubro 07

agenda outubro 08

agenda outubro 09

agenda outubro 10

agenda outubro 11

agenda outubro 12

agenda outubro 13

agenda setembro 07

agenda setembro 08

agenda setembro 09

agenda setembro 11

agenda setembro 13

agenda setembro 14

biblioteca

casa fernando pessoa

casafernandopessoa

congresso

cursos

editorial

exposição

exposições

fernando pessoa

ler agustina

lisboa cidade do livro

mensagem do desassossego

mensagem do dia

o que importa

o que importa 2013

o que importa 2014

poesia

serviço educativo

um poema de amor por dia

uma noite com pessoa

todas as tags

arquivos

Maio 2017

Março 2017

Janeiro 2017

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

blogs SAPO

subscrever feeds