Sexta-feira, 22 de Julho de 2016

"Quinta da Regaleira …onde a Magia anda no ar" por Helena Feital, aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

Quinta da Regaleira

 …Onde a Magia anda no ar.

 

 

“Do vale á montanha                                                                     

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por casas, por prados

Por quinta e por fonte,

Caminhais aliados.”                                                                

 

poço.jpg                                                                             Fig. 1 - Poço Iniciático

                                                                                                                              

E foi aliados nesta visita inesquecível que partimos por caminhos cheios de magia onde céu, terra e água se encontram num lugar enigmático e sobrenatural.

Logo à entrada tivemos como guia o Dr. António Silvestre que aliava à grande simpatia, um conhecimento vasto e profundo sobre a Quinta da Regaleira e os segredos ocultos nos seus bosques. E, claro, também sobre o Palácio.

Esta propriedade foi adquirida em 1840 por António Augusto de Carvalho Monteiro que, nessa época, a comprou por 25 contos de reis.

Carvalho Monteiro tinha como inspiração um espaço grandioso onde vivesse rodeado pelos símbolos dos seus interesses e ideologias. Ele queria evocar o passado mais glorioso de Portugal, daí a predominância do estilo Neomanuelino com a sua ligação aos descobrimentos e ainda pela arte gótica e alguns elementos clássicos.

Entre 1898 e 1900 dá-se inicio á construção do parque com o edifício dos cocheiros sob os planos do arquiteto cenógrafo italiano, Luigi Manini.

O simbolismo oculto da Quinta da Regaleira é enriquecido com temas esotéricos relacionados com a Alquimia, Maçonaria, Templários e Rosa Cruz.

 

 

Quanto a nós, eis-nos chegados à mitologia clássica que nos dá as boas-vindas na Álea dos Deuses composta pelo alinhamento de estátuas dos deuses Greco-Romanos: Fortuna, Orfeu, Vénus, Flora, Ceres, Pã, Dionísio, Vulcano e Hermes. E ainda, terminando, temos a Estátua do Leão que representa o sol que equivale na alquimia ao ouro.

E quando olho em volta para as árvores frondosas e muitas delas, raras, vejo as plantas de flores luxuriantes e…pareceu-me que tu, Fernando Pessoa, também estavas ali “Cavaleiro Monge” deslumbrado pelo bosque que vai sendo progressivamente mais selvagem até chegar ao topo da Quinta, bem lá no cimo, onde o céu lhe dá abrigo.

E a nossa aventura continua ao vermos a Torre da Regaleira, construída para dar a quem sobe a ilusão de se encontrar no eixo do mundo. Nela vemos os símbolos Manuelinos sobre os descobrimentos dos portugueses.

Logo depois…que lindo este som cristalino! Que pureza há na música d´água caindo em cascata naquele lago. Era o Lago da Cascata. E continuamos, mais e mais sentido o mistério que nos conduz até ao Poço Iniciático – uma escadaria em pedra de 27 metros de profundidade, toda em espiral, sustentada por colunas esculpidas por onde se desce até ao âmago da terra – o fundo do poço. Constituída por 9 patamares separados por lances de 15 degraus, cada um invocando referencias à “Divina Comédia” de Dante e que podem representar os 9 círculos do inferno, do paraíso ou do purgatório. Quando por fim chegamos ao fundo do poço o nosso olhar encontra, embutida em mármore, uma Rosa dos Ventos (estrela de 8 pontas) sobre uma cruz templária que é o emblema heráldico de Carvalho Monteiro e, ao mesmo tempo, indicativo da ordem Rosa Cruz.

O poço diz-se iniciático porque se acredita que era usado em rituais de iniciação à maçonaria. O poço evoca conotações herméticas e alquímicas. Identifica a relação entre a terra e o céu. A saída é feita através de várias galerias ou tuneis, mas só uma nos levará até à luz: ao lago que marca o nosso caminho para o outro lado através das pedras que nos levarão ao simbolismo da redenção. As outras galerias vão dar a outros pontos de grande interesse na Quinta. Quanto a ti, Fernando Pessoa, sei que passaste para a luz na glória da tua obra incomparável.

Mas o poço também quis testar a nossa resistência às provações do tempo. Com a chuva acumulada pela terra, a água caía pelas rochas como uma chuva de verão que caía sobre o nosso corpo. Pelos degraus que pisávamos, também ela nos mostrava o caminho, como se fosse um pequeno ribeiro a saltitar de contente pelas suas maldades. Para nós, foi uma descoberta que vencemos.

Pelo caminho exuberante que nos leva ao Palácio, vemos a beleza da Gruta de Leda – a Deusa da justiça divina. Esta composição escultórica é subordinada ao tema – Leda e o Cisne. Celebram os amores de Leda com Zeus, o Cisne que fecunda Leda. A lenda refere que a pomba que Leda segura na mão simboliza o Espirito Santo. As 3 gerações que estão no centro dos elementos maçónicos representam a Força, a Sabedoria e a Beleza.

Depois encontramos a bela Capela da Santíssima Trindade que tem elementos maçónicos como “O olho de Deus”. A magnífica fachada está centrada no revivalismo gótico e manuelino.

Nela estão representados Santa Tereza de Ávila e Santo António. No meio, a encimar a entrada, está representado o Mistério da Anunciação – o Anjo Gabriel desce à terra para dizer a Maria que ela vai ter um filho do Senhor Deus Pai.

No interior do altar vê-se Jesus depois de ressuscitar a coroar uma mulher. Do lado direito, Santa Tereza e Santo António, desta vez, apresentados em painéis de mosaico. Do lado oposto, um vitral lindíssimo, apresenta-nos o milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho. No chão estão representadas a esfera armilar ou globo celeste e a Cruz da Ordem de Cristo rodeada de pentagramas (estrelas de 5 pontas).

E por fim, chegamos no aconchego acolhedor do Palácio. O edifício principal é marcado pela beleza estética da torre octogonal. Toda a exuberância da decoração interior do Palácio pertence ao arquiteto José da Fonseca.

Comecemos pelo alpendre: a caprichosa ornamentação evoca a epopeia dos Descobrimentos Portugueses e o arquétipo da viagem: A seguir entramos na sala de jantar, com uma lareira monumental, rematada pela escultura do monteiro e onde sobressai o tema da caça. Da policromia do mosaico veneziano, às mísulas da abóbada, transparece o tema do ciclo da vida.

E eis-nos chegados à “Sala dos Reis”, a antiga sala de bilhar onde estão representados 20 reis e 4 rainhas da monarquia portuguesa e, também, os escudos das cidades de Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. Sobre a lareira encontra-se hoje o antigo brasão de Sintra. Aos pisos superiores não fomos. Já era tarde.

Quando regressávamos a Lisboa, durante momentos, ouviu-se o silêncio de cada um de nós, como se estivéssemos revivendo a magia daquele lugar onde Fernando Pessoa foi tantas vezes.

Lembro o final do seu poema sobre a Regaleira, escrito em 24-10/1932.

 

“Do vale à montanha,

Da montanha ao monte

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por quanto é seu fim,

Seu ninguém que o conte,

Caminhais em mim”.[1]

 

[1] Helena Feital

No final de Maio de 2016

 

Fonte bibliográfica: ANES, José Manuel, Os jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira. Lisboa: Ésquilo, 2007.

publicado por CFP às 17:15
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