Pensar é limitar. Raciocinar é excluir. Há momentos em que é bom pensar, porque há momentos em que é bom limitar e excluir.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, p.199
Não quero mais da vida do que sentil-a perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de creanças alheias que brincam, nestes jardins engradados pela melancholia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das arvores, pelo ceu velho onde as estrellas recomeçam.
Livro do Desasocego - Tomo I, edição crítica de Fernando Pessoa, volume XII, edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2010, p. 255
Sinto frio na alma: não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manta nem capa. Quem o sente não se esquece.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, p.94
Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente noutra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem se tocando, os envolve como uma nuvem.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, p.71
Tenho pensamentos que, se lhes pudesse dar corpo e fazê-los viver, acrescentariam um novo brilho às estrelas, uma nova beleza ao mundo e um maior amor ao coração dos homens.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, p.57
A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de um instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto.
A Procura da Verdade Oculta – textos filosóficos e esotéricos, Fernando Pessoa, prefácio, organização e notas de António Quadros. Europa-América, 1986, p. 63
Não o amor, mas os arredores é que vale a pena…
A repressão do amor illumina os phenomenos d’elle com muito mais clareza que a mesma experiencia. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuido, e portanto perder-se. Só a idéa attinge, sem se estragar, o conhecimento da realidade.
Livro do Desasocego- Tomo I, edição crítica de Fernando Pessoa, volume XII, edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2010, p. 481
Porque o que os portugueses têm de excelente é serem o povo mais civilizado da Europa. Nascem civilizados, porque nascem capazes de aceitar tudo. Nada têm daquilo a que os antigos psiquiatras costumavam chamar misoneísmo, termo que apenas significa aversão às coisas novas; adoram a novidade e a mudança. Não possuem elementos estáveis, como os franceses, que só fazem revoluções para exportação. Os portugueses estão sempre a fazer revoluções. Quando um português se vai deitar faz uma revolução, porque o português que acorda no dia seguinte é muito diferente. Tem precisamente mais um dia, muito distintamente mais um dia. Outros povos acordam todas as manhãs como se fosse ontem. O amanhã está sempre a vários anos de distância. Não é assim com esta estranha gente. Vai tão depressa que deixa tudo por fazer, incluindo andar depressa. Nada é menos preguiçoso do que um português. A única parte indolente do país é a trabalhadora. Daí a sua manifesta falta de progresso.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, pp.194-95
O temperamento português é universal: é essa a sua magnífica superioridade. O único grande acto da história portuguesa - esse longo, cauteloso, científico período dos Descobrimentos – é o grande acto cosmpolita da história. Nela se retrata o povo inteiro. Uma literatura original, tipicamente portuguesa, não pode ser portuguesa porque os portugueses típicos nunca são portugueses. Há algo de americano, fora o ruído e o quotidiano, no temperamento intelectual deste povo. Nenhum povo se apropria tão prontamente das novidades. Nenhum povo se despersonaliza de forma tão magnífica. Essa fraqueza é a sua grande força. Esse não-regionalismo temperamental o seu desusado poder. É essa indefinição da alma que o define.
Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento, Fernando Pessoa, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2007, p.194
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com um o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um criterio identico ao do outro, mas cada um via uma coisa differente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso d’ esta dupla existencia da verdade.
Livro do Desasocego- Tomo I, edição crítica de Fernando Pessoa, volume XII, edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2010, p. 476
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