Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 6

Parece um cliché mas o que importa é o amor. Qualquer e todo o tipo de amor. Sem amor as relações humanas não têm sentido, e sem essas relações o mundo não funciona. Senão vejamos.

Sem o amor de um homem e de uma mulher como é que se pode formar uma família no verdadeiro sentido da palavra? Sem o amor de uma mãe ou de um pai como é que se pode formar e desenvolver convenientemente uma criança? Sem o amor pelos pais como é que um jovem respeitará os seus conselhos? Sem o amor pelo seu país como é que podem os cidadãos ter um sentido de nação e de bem comum? Sem o amor por si próprio como é que pode uma pessoa amar os outros e amar aquilo que faz? Estes são os grandes amores. Mas há também os pequenos amores. E o que são os pequenos amores? São aquilo que tradicionalmente se traduz por “gosto de…”, agora também muito demonstrado nos like das redes sociais. E voltamos ao mesmo. Sem gostar de trabalhar, como é que um profissional pode enfrentar o seu dia a dia? Sem gostar de cozinhar como é que alguém conseguirá preparar as mais apetitosas iguarias? Sem gostar de comer como é que alguém apreciará essas iguarias? Sem gostar de estudar como é que um estudante conseguirá aprender as matérias ensinadas? Sem gostar de algo como um hobbie como é que as pessoas passarão os tempos livres?

E para além do amor, o que também importa é expressar esse amor. Constantemente. Numa pequena oferta que um amante faz à sua parceira. Num carinho que uma mãe faz a um filho. Num acatar das recomendações dos pais por parte de um jovem. Na divulgação orgulhosa das coisas boas do seu país. Num pequeno mimo que alguém faz a si próprio para se sentir bem. E ainda mais. Num orgulho expresso por alguém sobre a sua atividade profissional. Num novo prato feito especialmente para alguém. Num comentário verdadeiro e simpático relativo aos esforços de terceiros. No esforço que resulta na obtenção de boas notas. No entusiasmo expresso na sua atividade de tempos livres.

Este constante renovar do amor é importante para cada um de nós e reflete-se nos outros. E reflete-se de uma forma positiva. Que é multiplicativa. É fácil concluir o que se obtém desta multiplicação.

Por isso há que amar. Muito!

 

LUÍS GIL

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 5

O QUE IMPORTA?


Tenho 18 anos e quero eu fazer um texto sobre o que aprendi com a vida? Os mais velhos certamente se vão rir. Estou no primeiro ano da minha vida com deveres oficialmente cívicos, pela primeira vez a viver fora da casa dos pais e monetariamente sou ainda total e completamente dependente. Ainda não sei o que é estar sozinho sem contar com a ajuda de ninguém para me apoiar, solitário, responsável por todos os meus actos sabendo que não haverá uma única pessoa que me possa compreender e tomar os meus erros por mim e ouso eu falar sobre a minha sabedoria e o que a minha história pessoal me ensinou?
Mas, o que importa isso? Dos anos em que conservo mais do que cinco memórias por estação talvez não sejam mais do que dez, mas não terei eu as minhas ambições, os meus sonhos, as minhas vontades e a consciência, talvez imberbe, ilusória e ainda naive, do que me circunda, das pessoas que me rodeiam e das experiências que até hoje tive? Tenho sim, muitas vezes subestimada por quem se congratula da sua vasta vivência, mas não será esta a fase da vida em que somos mais verdadeiros e não nos deixamos convencer e conformar tão facilmente? Certamente porque nos iludimos que tudo é possível, que o mundo pode mudar e que talvez até passe pelas nossas mãos essa mudança. Dizem-me que é próprio da idade... Mas perante tanta coisa errada, tanta raiva por ver tudo de pernas para o ar, por olhar à minha volta e imaginar que tudo do avesso seria tão melhor, não é justo deixar-me sonhar que é possível lutar por algo melhor ou pelo menos algo não tão mau, errado e miserável?
Um dia estava eu a dar uma explicação, a ajudar uma criança com problemas de aproveitamento escolar — e fossem só esses os problemas -, e separados ainda entre aquela barreira tão bem descrita pelo Saint-Exupery através da raposa e no modo como ela se aproxima do principezinho, perguntei-lhe o que é que queria ser um dia quando tivesse de trabalhar. Nada, foi a resposta convicta e directa que me deu. Eu não tinha deixado de ser criança assim há tanto tempo mas com aquela resposta eu nunca contaria. Astronauta, futebolista, cantor seriam respostas que eu me lembrava que preenchiam o sonho de todos os miúdos, eu incluído noutros tempos, mas “nada”? Não ter o sonho de um dia se poder orgulhar em fazer algo realmente bom? Quer dizer, não é preciso trabalhar para se ter qualidades, mas ser alguém, querer ser alguém, não deverá ser uma atitude inata de qualquer criança? A vontade de querer viver a vida, de um dia poder ser tão grande como os “enormes” que nós todos os dias idolatramos, se não está presente no dia-a-dia, então o que nos pode mover, tentava eu compreender.
Há menos tempo, tive a oportunidade de conversar com um senhor, provavelmente com o dobro da minha idade, que estava ilegal no nosso país. Era de Conacri, a capital da Guiné, e marinheiro de profissão. Estava desesperado. Não tinha passaporte, não tinha dinheiro, não tinha trabalho. Só tinha mesmo uma coisa: a família. Só que essa, a única que ele de facto ainda se orgulhava de ter, estava longe, na sua terra natal. Mas enquanto tínhamos esta conversa reparava estupefacto como é que uns simples “pantalon”, como ele dizia, umas sandes e uma sopa quentinha podiam trazer um sorriso tão grande a um homem já pai de 6 filhos. Que estava ele aqui a fazer? Veio em busca de um sonho, veio lutar por uma vida digna para si e para a família e agora sente-se ameaçado por perder o pouco que ainda tem: a mulher e os filhos. Não pode voltar, cá não pode continuar ou então viverá ainda mais miserável do que algum dia foi e o tempo corre, os filhos crescem e o mundo gira, gira, o tempo passa e as vidas, as vontades, as memórias, as angústias, as saudades, tudo cai no esquecimento...
Mas enquanto cá estamos, seja por um período curto ou longo, depende do ponto de vista, enquanto nos sentimos tristes e contrariamos essa tristeza com sorrisos e gargalhadas e rapidamente a transformamos em felicidade, enquanto uma dor de barriga dói e nos deixa mal dispostos assim como um exame nos deixa nervosos nos minutos que precedem a sua chamada, enquanto choramos de alegria por abraçar alguém que já não víamos há anos ou sorrimos de orgulho por saber que um amigo em quem depositamos confiança vai concretizar o sonho da sua vida, não a deveremos aproveitar em todos esses momentos, aprender com os maus, desfrutar dos melhores, mas sobretudo viver?
Com estes dois exemplos de que falei, não é meu objectivo compará-los, até porque não são comparáveis, mas para olhar para os dois e reflectir no porquê de nós, minoria no mundo que sabe ler, abre a torneira e sai água potável, à noite deitado na cama tem um tecto em cima da cabeça e onde depois de todas as refeições pode guardar as sobras de comida num frigorífico, nos preocupamos com míseros problemas e ficamos transtornados quando o arroz está insosso ou quando chove e os pés reclamam com o frio.
Poder ajudar uma criança a ter esperança e força de vontade para lutar e alcançar aquilo em que acredita, poder ajudar um homem a recuperar a vida, talvez para uma pobre e muito dura, mas pelo menos feliz ao lado de quem partilha a sua felicidade, não será por si só uma boa motivação para que enquanto não caímos no esquecimento sentirmo-nos orgulhosos de termos a oportunidade de viver durante alguns anos? Dizia SaIIy Koch um dia que “as grandes oportunidades de ajudar os outros raramente acontecem, mas as pequenas surgem todos os dias”. Fiquei triste por não ter a capacidade de olhar para aquele rapaz e conseguir transmitir- lhe coragem para querer lutar por um futuro. Fiquei triste por até ao dia em que escrevo este texto, ainda não ter conseguido tratar da papelada e pagar o bilhete de avião para Conacri, mas não vou desistir, há muita luta pela frente e ainda por cima não tenho o problema de estar num labirinto em que se viro para o caminho errado, perco-me. Aqui, vire-me para onde me virar, escolha o caminho que escolher, encontrarei sempre a oportunidade de poder estender a mão, dar um pouco de mim por alguém que não teve a mesma fortuna que eu. E nunca se chegará a um momento em que alguém se possa gabar de dizer que já fez o suficiente. Curriculum todos temos, ninguém sabe é dizer qual é o antónimo desta palavra, porque é incomensuravelmente maior aquilo que não fizemos daquilo que nos podemos orgulhar de ter feito.
Todos os dias, ou pelo menos todos os que me lembro, chego à conclusão que o pior defeito da humanidade não é a preguiça, o orgulho, a vingança ou o individualismo, é a intolerância. Porque no dia em que formos capazes de olhar para o outro, tenha ele que aspecto tiver, seja arrogante, bruto, mal criado ou falso, e nos pusermos no seu lugar, tomarmos em consideração toda a sua vida, as experiências, boas e más, pelas quais passou, todo o egoísmo ou vontade de lhe querer mal ou simplesmente ignorá-lo desaparecerá porque o vamos compreender. No momento em que olharmos para o colega de trabalho competidor e desonesto, encararmos o vizinho antipático e avarento ou o polícia vingativo e impiedoso e acreditarmos que as suas opiniões e atitudes, que não são mais do que o reflexo das experiências que tiveram ao longo da vida, com o nosso contributo e compreensão poderão ser passíveis de ser modificadas para melhor ou então pelo menos formos capazes de sorrir e seguir a velha máxima tão verdadeira de que “errar é humano, mas perdoar é divino”, este mundo pode-se tornar um bocadinho melhor. Sou um miúdo, ingénuo talvez, mas “ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar”. Dizia tão acertadamente Kierkegaard que “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”. O que importa mais na vida senão ter o orgulho de que contribuímos para que alguém, familiar ou desconhecido, parente ou amigo, se sinta mais feliz por nossa causa? Todos caímos no esquecimento, alguns ainda preservam por uns tempos uns livros, um texto, uma frase, uma palavra, uma ideia sobre si, mas será maior a satisfação de, já não pertencendo a este mundo, falarem sobre nós, muitas vezes erradamente, ou durante o tempo em que respiramos, ouvimos e cheiramos, sentirmos o coração mais acelerado por ter feito nascer um sorriso?

TOMÁS MELO BANDEIRA

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'O que importa' (textos escolhidos) 4

COM O MAL DOS OUTROS POSSO EU BEM

Ainda não vivi muito tempo, ainda consigo contar a minha idade pelos dentes que tenho e sobrar alguns, não passei por mil experiências, nem por caminhos tumultuosos ou obstáculos intransponíveis, falta-me viver muito, passar por tudo aquilo que ainda não consigo imaginar, ainda nem sei o que quero ser quando for grande, nem qual o país que mais vou gostar de visitar, mas já sei o que é importante e o que me importa.
Todos passamos por experiências, a cada uma das quais damos um valor, um único e determinado valor, com umas aprendemos a ser mais, com outras não aprendemos muito, mas fica sempre algo para contar. Existem pessoas que passaram por essas experiências connosco e que nos deram algo, de bom ou algo de menos bom. Se foi algo menos bom, temos que decidir: Admitimos essas experiências passivamente? Ou combatemo-las? Eu resolvi combate-las, ou seja, aprender e fazer algo do que aprendi, não sei as armas que uso, nem as munições são sempre as mesmas, não é verdade que muitos vêem o mundo e os outros de forma diferente só por estarem mais cansados? Resolvi tentar transmitir o que a mim me importa, um “simples acto invisível que muda vidas” porque, para mim, estes actos mudam-me a vida.
Sempre fui uma pessoa nervosa, a ansiedade é o meu “monstro do saco”, mas não gosto do mau nervosismo, da má palavra, nem de ferver em pouca água e agito-me com ninharias, tremo com maus pensamentos, porque sei que nem todas as pessoas são boas, nem todas são más, mas partindo desse principio básico da natureza humana, que fazer com as menos boas? Quando estás em situações em que está nas mãos dos outros sentires-te bem ou mal, não consigo compreender porque os “outros” não fazem nada para isso desaparecer e tu voltares a ser “tu”. Aprendi assim que nem todos se dão ao trabalho de deixar alguém descansar e dar-lhes paz, uma paz límpida, uma ajuda branca, que é mais fácil do que se concebe.
O que me importa são as pessoas, como seres individuais, eles mesmos, as suas personalidades, as suas diferenças e semelhanças, as diversas formas de estar na vida, importa-me sobretudo observar cada um como ele é e dar um pouco de mim a alguém.
Sou contrária ao pensamento do “com o mal dos outros posso eu bem” e este tem-se generalizado no meu dia-a-dia, no que já li e ouvi, naquilo que já olhei, pelos sítios por onde já passei, pelas conversas, pelas relações, pelas amizades, a cada esquina que cruzamos temos registos de alguém que não se importou, alguém que virou a cara e calou. Questiono-me portanto, não deveria ser o egoísmo um animal já em vias de extinção?
Não me refiro aos grandes males, à desgraça de grandes povos, à pobreza, à fome, à doença, à maldade sobre um grupo de pessoas, sobre uma generalidade, falo do mal pelo mesquinho, para com uma pessoa, só para ela, fomos deixando que o egocentrismo comesse a humildade. Acredito que cada um deve pensar no outro de forma aberta e completa, conhecê-lo, agindo em consonância com a sua maneira de ser, sem passar por cima dos seus ideais, mas com aquilo que escasseia, a humildade, o olhar para dentro de cada um, daquele que nos está próximo.
O que importa é não deixar ninguém que cruza o nosso caminho, aquele ser único e especifico, pensar “como não se importa?”, “que lhe custa?” ou ansiar por “porque não diz?”, marcando-se-lhe uma ruga na testa de incredulidade. As pessoas seguem em frente depois de fazerem o mal a poucos ou a muitos e não voltam atrás, não voltam a pensar nesse alguém e se pensam, rapidamente aparece uma cortina de fumo que tudo tapa, a terrível “ocupação rotineira”, a “inércia da má vontade”, tudo se dissolve e deixa de prevalecer, já não incomoda.
Na minha história permanece o que me importa não esquecer, não deixar nunca ninguém ficar na mágoa, a quem dirigi a minha merecida atenção, se de mim depender não ficar, deixar alguém remoendo algo negro, só porque sim. Importa saber que alguém sofre e facilitar o seu desaparecimento, facilitar que volte a ficar tudo calmo, que o ritmo cardíaco volte ao normal, que a ansiedade desapareça, que os tremores deixem de ser frios, que a mente deixe de estar inquieta e atinja a paz, a paz branca de todos os indivíduos que tem alguém para lhes dar uma mão, são pequenos e mínimos gestos que mudam o indivíduo.
Na nossa sociedade já se começa a notar um núcleo de pessoas que se preocupa com O Todo, através de gestos, pequenos feitos que se tornam grandes, uma sociedade em movimento que tem feito um trabalho incansável, subindo umas escadas de muitos degraus, sem corrimão, nem antiderrapante, sem ver o final, nem saber quem os segue, quem vai lá à frente, mas sabendo que estão todos pelo mesmo, a tal ajuda, fulcral, por todos os tempos e épocas sempre indispensável, até que se dê o Big Bang ao contrário. Mas esse é o auxílio ao próximo e este próximo é mais do que um indivíduo, o que eu aprendi que importa é saber ajudar um para um.
São gestos tão exíguos, nem se vêem à lupa, não podem ser analisados, não se escreve nem se debate sobre eles, ninguém os vê, não existe uma lista de gestos “simples”, apenas podemos senti-los. O que me importa é dar esses gestos e ser merecedor deles, sentir que com tão pouco fazia-se tanto. Olhem com atenção à vossa volta, quantas pessoas vêem? Quantos pequenos alfinetes, problemas que picam, todos devem ter? Já olharam bem para o vosso amigo mais próximo? Para as pessoas que está sentada ao vosso lado? Que vêem nos olhos dele, que vêem nas mãos dele? Porque, maioritariamente, não fazem nada? Quando é que acham que podem dizer, “já fiz algo, acho que já chega”, “por hoje é tudo, não vou andar sempre nisto”, “ora, com o mal dele posso eu bem!?”.
Eu não quero ajudar toda a gente, não quero que toda a gente ajude toda a gente, quero que toda a gente ajude pelo menos alguém. Aprendi isto quando passei por momentos de desalento em que a única coisa que pedia era que alguém desse esse pequeno “gesto”, aquele “gesto” que faria tudo acalmar, faria tudo tão mais simples, tudo tão mais morno, pensei e agi, tento não deixar ninguém ficar na ansiedade, na tristeza ou na intolerância, naquela meia medida entre a raiva e a incompreensão, quero sim ir contra a apatia generalizada que um indivíduo tem para com o outro, que esse individuo, que somos nós todos, deixe o seu individualismo, o orgulho e a preguiça e cometa um acto de valor.
Todos nós somos seres racionais que (se) questionarão, mas alguém vai acreditar que não faz algo “pequeno” na vida de outro alguém porque está distraído ou vai à pressa?
Se estiver neste mundo para contribuir com pequenos gestos e senti-los, então fico, senão para a próxima quero ser um gato.

CRISTINA MORAIS (04.03.2012)

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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 3

Diz Sebald em “Os anéis de Saturno” que “escrever é a única maneira de me defender das recordações” e, por isso, porque ao guardá-las cá dentro elas se desfiguram numa amálgama de instantes desconexos e se configuram a seu belo prazer, me decido hoje a deixar no papel algumas tentativas de reconstituição de um tempo de horas lentas e melancólicas, subitamente iluminado pela tomada de consciência do propósito que me havia de guiar.

Pertencendo a uma discreta família classe média que vivia do trabalho intelectual, e neta de um histórico republicano maçon inconformado e inquieto, eu percebera desde cedo que o mundo tinha uma história e era grande, instável e perigoso. Compreendera que a justiça e a igualdade entre os homens dependiam de quem mandava e, pior que tudo, que neste país, no meu país, o poder estava nas mãos de poucos e violentos. Que se prendia, torturava e matava quem se lhes opusesse. Que era perigoso dizer o que se pensava. Que em tudo era preciso cautela. Sabia-o por conversas indirectas. As histórias trágicas de prisões e mortes eram sussurradas entre adultos, que os ensinamentos para a infância lá em casa, exaltavam o trabalho e a honradez num manto vigilante e disciplinador. E havia como que um fio a ligar a casa à escola, o fio da obediência, da hierarquia dos poderes, do recato e domesticidade feminina, da renúncia ao prazer. O proibido envolvia, como uma auréola ameaçadora, os dois exíguos espaços do quotidiano.

Foi assim que, à beira dos 15 anos, eu sabia muito pouco sobre o que dividia os homens e as nações, mas tinha a certeza de que havia em mim uma semente de revolta que precisava de adubo para se manifestar. Ora, o ano de 1961 foi fértil em momentos de excitação e expectativa. Chegava lá a casa uma sucessão de notícias espantosas que enchiam os corações de esperança. Acontecimentos perturbadores da ordem estabelecida. Foi o assalto ao Sta Maria na operação Dulcineia que me tocou especialmente. Crescera em mim, durante anos, uma certa ternura pelo Henrique Galvão, eternamente preso pela polícia política através das chamadas medidas de segurança e que, contava o meu avô que o visitava, vivia na prisão com um pardal que o acompanhava. Nesse ano, o corajoso político tinha passado à acção de forma tão radical e aventureira que, para mim, se fez herói. Foi também nesse mesmo ano que se iniciou a luta pela independência em Angola, que o ministro da defesa tentou um simulacro de golpe de estado, que os territórios na Índia passaram para a União indiana, e que eclodiu uma tentativa de revolta no quartel de Beja. Por cada notícia destas as vidas ficavam suspensas, suspensas no tempo de todas as possibilidades.

Nesse mesmo ano integrei a pró-associação dos liceus de Lisboa. Trago ainda comigo a lembrança da emoção que senti aquando da primeira reunião. Os jovens e as jovens da minha idade ou pouco mais velhos pareciam tão sabedores e inteligentes que abalavam e reconstruiam as minhas concepções, obrigando-me a interpretações mais elaboradas. Quando a reunião terminou, eu já não era a mesma, havia coisas novas em mim e um enorme entusiasmo. Muitas mais reuniões e encontros se seguiram, redacção e distribuição de comunicados na escola e tudo às escondidas, mentindo aos pais,“vou estudar para casa de uma amiga”, e eles acreditavam ou fingiam acreditar. Concedia a mim mesma o direito de mentir.

Em 62, o movimento estudantil toma proporções inimagináveis. Um vizinho da família e aluno na faculdade de direito entrava-nos casa dentro para contar as últimas. A concentração dos estudantes e a ocupação da cidade universitária pela polícia de choque, as posições do Marcelo Caetano, a carga policial e sequente greve em massa na cantina, as detenções de vários estudantes. A minha mãe, sentada no sofá, entusiasmava-se, era outra vez o pai a correr com o rei, era a verdadeira república de volta. As poucas referências na imprensa eram revoltantes. O pessoal do regime desorientava-se entre o assombro de ter filhos envolvidos na contestação e a propagação de aleivosias sobre o comportamento das raparigas estudantes na cantina ocupada. O meu pai franzia o sobrolho, desagradado. E eu a querer ir aos plenários e a ter de mentir e a desejar espreitar à noite uma RIA, sem mentira que me valesse. Nas aulas, era como se nada estivesse a acontecer. Tudo, espaço e gente, se comportava e interagia como sempre. Atrevi-me, com uma colega, a distribuir panfletos. Uma hora depois, todos os papéis se encontravam, muito arrumadinhos, na secretária da directora, que nos chamara para nos prevenir que era melhor não repetir o arrojo. Ninguém se referiu ao facto, nem professores, nem colegas. Todos ordeiros, disciplinados, quiçá assombrados. E a consciência política foi-se transformando em acção mais organizada. Entrei na faculdade onde as associações de estudantes eram como lava em ebulição.

Em 65, as prisões de muitos estudantes contribuíram para uma maior politização, e as manifestações de rua, assumidas como resistência e contestação à ditadura, eram o brado de uma juventude corajosa que não queria participar numa guerra fratricida, e se dispunha a lutar por um país mais justo e igualitário.

Ficou-me uma certa nostalgia desse tempo. Perguntava-se, num livro que não recordo, se se pode sentir nostalgia por um tempo de pobreza, de intolerância, de prepotência, de injustiça. É um misto de nostalgia e mal-estar. A verdade é que foi neste meu tempo de névoas que em mim se forjaram os sentimentos de solidariedade e cumplicidade com muitos para quem ainda hoje olho com ternura, e que foi também o tempo em que, com a soma dos medos, aprendi a coragem.

 

GRAÇA ANÍBAL

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 2

O QUE IMPORTA?

 

A vida é uma viagem e com ela muito há a aprender. Tenho observado o que os Homens querem da vida e concluo que, em grande sabedoria, lhes está o Universo, o nosso Planeta, a faltar. Estamos a viver tempos ostensivos em materialismo, mas o coração do Homem é Luz, sem chama, pois o Amor não está para a Humanidade, presente.

O nosso Planeta necessita de Amor e as crianças, o melhor da minha observação, estão a crescer com o coração atado e as mãos no teclado. Há muito, ando a notar que a vida está alheia do sábio “autista”, que não fala, mas tudo vê e deseja viver.

A escola anda às avessas com o conhecimento demasiado compacto e enciclopédico. Os alunos estão a retorquir o que demais desejam, os tristes professores, deixando de lado a Essência do seu Ser e não se entregando ao Amor. O que mais importa é o que temos no Deus do nosso interior. É o Amor que marca a diferença e que contribui tremendamente para a evolução do estimado Ser que o Homem é e, antes de mais, importa, em destemido tempo, Salvar.

 

JOÃO CARLOS C. GONÇALVES (20.02.2012)

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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

'O que importa' (textos escolhidos) 1

Iniciamos hoje a publicação dos textos seleccionados no âmbito da iniciativa O que importa e debatidos na presença do público no passado dia 24 de Abril.

 

O QUE IMPORTA? ESCREVER 0 MEU LIVRO DO DESASSOSSEGO!

 

1. Leituras & escrita

Alguém, que a memória me não deixou fixar, disse-me, em conversa informal, que nós somos os livros que lemos. De facto, este bibliómano tem duas certezas, uma é a de a vida ser curta para que se consiga ler tantos livros tão interessantes e úteis, a outra é a de que a vida é igualmente curta para que se consiga escrever sobre a permanente transfiguração do mundo, porque como diria o poeta “O mundo é uma bola colorida que pula e avança…” e nós somos simples mortais. Constataremos, então, caro Pessoa, que este mundo não pode ser transformado em Literatura!

 Algumas das leituras que fiz, foram exclusivamente lúdicas, como se o acto de abrir um livro, me conduzisse obrigatoriamente ao Paraíso, esquecendo-me do mundo; outras foram iniciadas por necessidade profissional. É que isto de se ser professor, torna-nos leitores compulsivos e o problema é que tomamos o gosto a esse estado incaracterístico. Depois das leituras, começa a fervilhar em nós a vontade de escrever. Tudo porque ler não é nada (já alguém o tinha dito] e escrever é tudo! Todos os textos que escrevemos e que germinam do nosso desassossego, acabam por ser novos seres que nascem de nós próprios. Todos eles são novos filhos que fazemos miraculosamente nascer, num acto inacreditavelmente hermafrodita. A ficção é [realmente] este mundo fantástico, no qual nos perdemos e, através dele, podemos ir muito além da realidade, vivendo a vida que outros viveram. Sem nada ocultar vos digo, que um dos meus grandes prazeres, aquele que me conduz à voragem das sensações, é o de construir histórias, adorná-las com novas personagens, encontrar as linhas de oposição e as de adjuvância, procurando surpreender o leitor, sempre que procuro inventar novos estatutos para os “meus” narradores e encontro [supostamente] um discurso e um estilo próprios. Escrevo, apago, modifico, como Sisífo o faria. É esta nossa fusão com o papel e a caneta (de que fala Ramos Rosa) que torna o acto de escrever tão fascinante e tão absorvente e que nos faz produzir um universo… que é plural!

 

2. Bibliómano

Na infância o paraíso era um bom livro e um quarto onde o lesse. Hoje esse quarto já não existe, porque está preenchido de livros. Contudo, esse quarto continua a ser um paraíso. É nele que descanso…como diria Saramago!

 

3. A escrita

 A escrita tem-se revelado uma amiga próxima. Confidente nos piores momentos, prazer obsessivo nos melhores. Foi devido a ela que nunca abdiquei de nada…embora já tenha tido vontade de fazer tudo do pior, como consideraria Herberto Hélder!

 

4. Ensinar

Desde há dezoito anos que ensino, que educo, tentando conduzir (educare) os meus alunos à fonte do saber. Por vezes tento ser o professor (o que professa as suas matérias), noutras o doutor (o conhecedor), em algumas ocasiões finjo ser o sofredor. E tudo isto, confesso… por amor ao próximo!

 

5. O riso

Mil setecentos e setenta: o futuro do passado. Por esta altura, Sebastien-Roch Nicolas lia, nos luxuosos e quase etéreos salões franceses, as suas máximas e pensamentos. Uma ficou na memória daquele grupo de cortesãos, vestidos de forma espampanante: "Um dia perdido é aquele em que não nos rimos". Esta frase ficou para a eternidade e facilmente se memoriza, porque sem riso não há vida. Sem ele, a vida deixa de ser…oblíqua!

 

6. Subverter & sorrir

Subverter textos e depois…sorrir. Nesses exercícios de escrita, gasto muito do meu tempo! Desconstruir e apresentar alternativas para os finais de obras clássicas, refazer sinopses, reescrever poemas e cartas. Imitei, é certo, James Finn Garner, mas acostumei-me a fazer sorrir os meus [poucos] leitores. E, pensei, isto é fantástico! E pensei, é para eles que escrevo! Escrevi, então, a “Carta da Génese dos Antónios” e uma pseudo-carta de Fernando Pessoa a um professor. Por veneração à…mensagem de Pessoa: a do inconformismo! Nele me revejo, porque sempre tive um ar lutuoso, mas no meu novelo interior (tal como tinha no de Pessoa) o riso tem importância crucial.

 

7. A minha viagem à Índia

 A minha viagem à Índia [o meu Oriente] é imaginária. Uma viagem imaginária influenciada por Joyce, ou por Xavier de Maistre. A divulgação do meu Quinto Império não é imaginária, porque todos os dias o faço e é assim que chego à Índia e à China…sem lá chegar.

 

8. A Ilha dos Amores
O prémio de Pessoa, a sua Ilha dos Amores, foi o contrariar a sua neurastenia, dando-se a conhecer aos outros…pelo nome de outros. Um dos seus actos de amor foi o de criar a Íbis. Ele que também foi [surpreendentemente] Álvaro de Campos…e mais uma multidão. Persistiu admiravelmente, escreveu obsessivamente (tal como Vergílio Ferreira, que entrou no Paraíso a escrever) e, por isso, o admiro cada vez mais. Quem dera ter essa bulimia e essa arte!

 

9. O sacerdote…das letras

Confesso a minha não-vocação! Pessoa, esse sim, foi um verdadeiro sacerdote das letras. Abdicou de tudo o que poderia ter tido em seu favor. Mas o que teve lhe bastou: uma série de irmãos de escrita (brothers of writing) que falavam por ele. Por isso, nunca esteve só.

 

10. Inteligência

 Naquela cabeça certamente fervilharam milhares de pensamentos. Que pena só termos tido acesso aos que foi guardando na sua arca! Esta arca foi verdadeiramente de Noé, para nós, portugueses, para vós, brasileiros, para vós, sul-africanos. Quem dera ter uma arca assim!

 

CARLOS FERNANDES MARQUES

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Tel: 21 391 32 70

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