Quarta-feira, 14 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 6

O meu nome é Pedro. Sou gay. Também sou vegetariano.

Acontece que o meu pai é talhante. Também é caçador em horas vagas e um pouco homofóbico quando está para aí virado. O meu pai torneia a crise no Médio Oriente com a opinião firme no único copo de vinho tinto que bebe ao jantar com a mesma certeza que afirma ser o Benfica o glorioso ou a Terra redonda.

Muita gente considera hilariante o facto de eu não comer carne quando é a vendê-la que o meu pai ganha a vida. Alguns destilam neste facto um primário exemplo de revelia Freudiana, enquanto outros apenas vêm uma decisão economicamente infeliz, pois tomara a muito bolso queixoso ter boa carne à mesa, e ainda por cima sem por ela ter de pagar um tusto.

Mas pausemos aqui para divergir um pouco.

Nos primeiros tropeções do século passado, Ricardo Reis observa gentes em trânsito sobre ombros humildes atravessando secas as águas do Cais do Sodré. Intactas e enxutas vemos as peúgas abastadas. Oportunidade perdida. Roupa sem mácula. Na sombra ressuscitada de Reis, Saramago acolhe uma metáfora curiosa. Com ou sem intenção, Saramago toca um descontínuo metafórico universalmente sentido: o vazio entre aquilo que nos permitimos sentir e o quanto crescemos com base nas nossas decisões. Pelo menos disso me lembro d’O Ano da Morte.

Este eu nada metafórico que aqui escreve compreende todo esse espaço. Por vezes sinto que esta amplitude, uma ligeira e terna plenitude de infinitas hipóteses num sopro só meu, é nada mais que uma imensidão que a minha mente não consegue comportar. Demasiadas variáveis, demasiados passos, demasiados resultados possíveis. É um exercício estranho e remoto, esta existência na estatística do prévio: aconteceu assim, pode ser que resulte ali. Nós somos aquilo que fazemos, aquilo que sentimos e aquilo que lembramos. No entanto, o que importa nas decisões arriscadas que tomamos é aquilo que escolhemos com elas aprender. Esta teia de fazer e sentir e pensar é a filigrana que compõe os cantos mais íntimos da nossa identidade. Nós somos as histórias que contamos a nós próprios, e o que mais importa neste espaço é aquilo que acreditamos ser a verdade ou a ficção das nossas narrativas pessoais.

Este espaço de decisão pode parecer aleatório, mas raramente o é.

Voltando ao meu pai e à sua descendência improvável.

Não escolhi ser gay da mesma forma que não escolhi não gostar de figos, desportos de equipa ou do cheiro de caracóis quando cozidos. No entanto, escolhi ser vegetariano, não sem a previsível dose de condescendência parental. Nenhuma destas variáveis é mais válida que a outra em situar, ponto a ponto, a geografia mental e a taxonomia comportamental de Pedro Ferreira. O que importa é a forma como Pedro Ferreira reconhece Pedro Ferreira quando se olha ao espelho.

Aquilo que os outros vêm e experienciam enquanto pessoa e entidade autónoma e externa a elas próprias – uma criatura que age e pensa e fala como Pedro Ferreira e que, logo, deverá ser Pedro Ferreira – em pouco delas depende. Pelo menos naquilo que verdadeiramente importa.

Da mesma forma, escrever estas linhas a dez mil metros de altitude pouco me distancia das variadas partículas elementares que lá em baixo se movem e impactam as minhas vontades. Estas asas provisórias que de momento tenho não batem para longe os dissabores e desamores que fazem da minha vida um contínuo de histórias ao invés de um monólogo de nadas. São asas que me levam de capítulo em capítulo, puxando para trás de mim ventos e desejos, arrastandome, com ou sem querer, para novas entrelinhas e novas expectativas. Deixo amores e projetos numa outra costa enquanto sonho as cores e sílabas de futuras narrativas.

O problema, a existir, mora frequentemente no desespero branco e ofuscante com que vemos os picos isolados das montanhas que somos, pensando-nos seguros da nossa distância aos outros. Vemos intimações de solidão no fluxo constante de tudo aquilo que está lá fora, e esquecemo-nos que somos gotas desse mesmo rio de experiências e vidas. O que importa é saber que estamos tão isolados quanto nos permitimos estar.

Do muito que sou, pouco o devo apenas a mim próprio. No entanto, essa parte de mim à qual chamo volição e vontade acaba por servir tanto de provável como necessário juiz e efetor daquilo que me proponho viver. Tão pouco me posso moldar àquilo que o meu pai queria e esperava de mim quanto posso ou quero aprender a gostar de futebol – ainda sonho encontrar o amor da minha vida como aspiro aprender Grego antigo ou a tocar a suite n.1 em G maior BWV 1007 para violoncelo de Johann Sebastian Bach.

Voltando, então, a essa forma peculiar de carrego, como nos levantam os outros e como beneficiamos nós desse suporte? Argumento que aquilo que verdadeiramente importa não se fica pela negação do apoio, da interacção, da negociação daquilo que queremos ser face a e em resposta aos outros, mas pela irredutível fé na nossa capacidade de nos definirmos. Se sou um rapaz fatalmente desastrado, ocasionalmente meigo, tragicamente romântico, irrevogavelmente cerebral e atreito a adjetivação e verborreia, sou-o porque o escolho ser. Poderia ser apenas estranho, mas escolho ser fortuitamente estranho, quiçá até perfeitamente usual.

O que importa é que o Pedro Ferreira que é filho de um talhante (o qual Pedro muito ama, mesmo sendo tão carnívoro quanto um Católico no primeiro dia fora da quaresma), que é vegetariano, neurocientista em formação ou alma profundamente anacrónica, é apenas uma impressão digital no livro das faces do infinito catálogo existencial que é este pequeno grande mundo. Esta identidade é, pela virtude do ipso facto que carrega, uma pegada única com direito a selo de autenticidade. E como Ricardo Reis, Pedro Ferreira gosta de ficar perto do rio, lá para baixo, porque mesmo não se lembrando do hotel (o próximo destino), a rua sabe onde é (qualquer uma em que não olhe para trás), porque vive em Lisboa (onde mora o coração) e é Português. Porque Saramago não se importava ser parafraseado. É isso que importa. 

 

Pedro Galvão Ferreira

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 5

Willys, assim se chamava a criatura

 

Assim se chamava o animal.

Animal de carga, animal de transporte de gente, animal selvagem, animal teimoso por vezes, corroído pelo tempo e pela longevidade que lhe advinha do seu nascimento mas, ainda assim, um animal muito prestimoso.

Muitos anos se passaram, muitas luas, cacimbos imensos, em calendário Romano para aí uns cinquenta e quatro, cinquenta e cinco anos sobre o último vislumbre da dita criatura.

Ainda assim, não a esqueci e volta não volta recordo-a com saudade.

Com ela vivi grandes e pequenas aventuras. Com ela cresci alguns anos, não muitos que a vida se encarregou de nos separar mas, mesmo assim, ficou a memória, a memória dos bons momentos partilhados e dos maus também que disso se compõe a dita memória. Bons e maus momentos.

Nos bons momentos era uma maravilha, a criatura não se oponha a movimentar-se e então era uma correria, nunca demasiada que não conseguia, mas a que se fazia era suficiente para provocar a vertigem do gozo que sentíamos no seu dorso.

Picada fora, destrambelhada, lá ia ela cheia de força e do vigor que os anos não lhe tiraram. Subia montes, descia vales, corria nos trilhos calcados por tantas outras criaturas, por ela também, centenas de vezes e dava-nos a satisfação de nos sentirmos livres, cabelos ao vento, os que restavam porque naquela altura o verdadeiro corte era à escovinha e não havia cá modas.

Sentados, em pé, dançando de um lado para o outro com o seu balançar, quase uma dança tribal, e cheios do frenesim que só as grandes e impenetráveis matas verdes nos faziam sentir. Parecíamos uns cabritos monteses, às tantas não se distinguia quem mais gozava com tanto salto, ressalto, desvio, encontrão, um sem número de coisas que hoje seriam perigosas.

E era vê-la, à criatura, toda aperaltada, inchada de vaidade por nos proporcionar tamanhas alegrias. Quando balançava demasiado e nos atirava de um lado para o outro, quase instantaneamente se endireita receosa de nos ter magoado e quando nos ouvia rir às gargalhadas de tanta satisfação quase lhe sentíamos um sorriso vindo lá da frente, juntinho ao chão da picada de onde não desviava a atenção.

Grandes aventuras sim senhor, que saudades da criatura.

Por muito que me esforce não consigo caracterizá-la convenientemente, a sua cor há muito se havia desviado da original, se é que cor alguma ainda tinha. Desprovida de tudo o que não era essencial, despida de todo o supérfluo mas ainda assim uma criatura maravilhosa.

Nos maus momentos era uma desgraça, não se movia um milímetro, não queria saber quanta pressa tínhamos nem que horários havia a cumprir, não se mexia e pronto. Falavam-lhe, viam-lhe o coração e nada, nem um trémulo movimento. Nestas alturas era o raios partam a criatura que saía de rompante de todas as bocas.

De repente dava-lhe para se mover e todos se aquietavam na esperança que não voltasse a quedar-se imóvel e muda como antes. Às vezes acontecia que depois de um repente se imobilizava de novo, mas nas outras recomeçava o prazer da marcha ainda que iniciada com algum vagar não fosse dar-lhe um treco qualquer.

Grande criatura que tão bons momentos nos deu e que sempre que a memória acorda para as coisas de tempos idos nos aparece na lembrança.

Era para aí por volta de mil novecentos e cinquenta e cinco ou seis, já levava uns anos largos de vida excepcionalmente dura, já tinha estado na guerra, na segunda claro. Daí veio directamente para as matas de África que não conhecia mas a que rapidamente se afeiçoou, como nós também, sofria de agudo SPTG (stress pós traumático de guerra) e ali, apesar da dureza da vida, encontrou alguma paz, um refúgio de gente que a utilizava em actividades de paz e prazer e não de guerra.

Era uma criatura excepcional, Willys, assim se chamava, jeep para os menos próximos, nome completo Jeep Willys, uma criatura levada da breca. Quase só chassis, motor e pneus mas, como se diria hoje, sempre a abrir. Nascida propositadamente para equipar o exército dos USA na segunda grande guerra e ali, nos confins das matas de África, corria picadas, desbravava caminhos e respirava o ar puro de tanta vegetação.

Criatura danada que tanto nos deu sem pedir mais que o líquido que lhe matava a sede e lhe dava força para a caminhada, e se bebia.

Obrigado Willys, nunca te esqueci.

Ainda hei-de contar aquela noite que não quiseste andar no meio da mata cheia dos perigos da noite africana, fiquei zangado, era pequenino e tinha muito medo, mas sabias que o meu pai nunca deixaria que nada de mal me acontecesse.

Eras uma sábia criatura, vias longe e não tinhas pressa. Eras a minha criatura preferida e sabias que assim era.

 

Luis Filipe Carvalho

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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 4

Refleção

 

Sou jovem de muita idade,
Doente mas cheia de saúde,
Fui gaivota de asa ferida,
Borboleta, sem asas multicores
Sou o infinitamente pequeno
No infinitamente grande,
Sou átomo ínfimo
No cosmo infinito.
Penso; mas será que existo?
Minha existência é tão efémera...
Quase inexistente;perder-se-å
Nos confins dos tempos...
Neste mundo sou menos que
Um grão de areia
Na imensidão de todas as praias
E desertos.
Sou ave ferida.sem poder voar,
Cantora sem voz,
Pintora sem telas nem tintas,
De poeta, só os meus versos
Testemunham o meu querer;
Sou tudo o que queria ser, e não sou,
Mas plena numa coisa:
Sou plena no amor que dou!

 

Elvira Soares

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Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 3

Ser humano.

O que mais me importa é aprender a dar valor aos benefícios que a vida me traz antes que mos leve. Saber e admitir aquilo para que acordo e para que me arranjo de manhã. Ser verdadeiro.

Ser humano.

O que mais me importa é encontrar a estrada certa, escolher o melhor caminho, aquele que sei que nada me trará que não seja belo e bom. Ser feliz.

Ser humano.

O que mais me importa é fazer todo o tipo de boas extravagâncias, olhar para lá do horizonte e ver o passo a dar. Criar laços fortes e seguros para a um bom porto chegar. Ser confiante.

Ser humano.

O que mais me importa é ajudar quem precisa de ajuda, partilhar com quem precisa de partilha, educar quem precisa de educação e amar quem precisa de amor. Ser solidário.

Ser humano.

O que mais me importa é aproveitar cada dia e cada noite, ver o nascer e o pôr do sol… e da lua… e das estrelas… Até que, de olhos fechados, os possa ver, tornando cada sonho meu mais profundo e descansado. Ser visual.

Ser humano.

O que mais me importa é meditar sobre cada dia, a cada passo na floresta, a cada mergulho no mar. Pintar as mais belas imagens, mesmo que na minha imaginação. Ouvir as mais belas músicas, especialmente na natureza. Ser artista.

Ser humano é ser verdadeiro, feliz, confiante, solidário, visual e artista.

O que mais me importa é ser humano.

 

Carolina Garcia

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Terça-feira, 6 de Maio de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 2

 QUE IMPORTA

“Sê plural como o universo”

Era o horário nobre da TV e um programa de grandes audiências. O entrevistador, reputado pela grande experiência televisiva, num último olhar para dentro perscrutava a acutilância das suas perguntas, o arrojo da sua visão e passando a mão pelo cabelo, dirigiu-se, com um ar complacente e amistoso ao entrevistado. Do que me recordo hoje, as perguntas são próximas das reais… já as respostas, essas, li-as eu no olhar do artista de dimensão enorme, perante quem dava vontade de cair aos pés e agradecer a Obra… a dádiva… mas que, por vezes incrédulo … outras, quase envergonhado, tacteava o que responder. 

 

“É com imenso prazer que recebo no meu programa um artista com a sua projecção internacional e já quase uma relíquia pertencente a uma geração de artistas do início do Sec. XX, dos quais já não nos sobram, infelizmente, muitos testemunhos.  

“Obrigado” respondeu um sorriso desprendido e um olhar vago de quem, com distanciamento ou quase desinteresse, aguarda o que lhe vai ser perguntado. 

 

“Como foi nascer no início do Sec. XX no seio de uma família abastada?  

Nasci há um seculo atrás como ainda se nasce hoje, expelido com urgência de um ventre onde não mais se pode ficar… e aqui estou inteiro! Do resto não me recordo… mas creio que deve ter sido confortável!” 

 

“Mas um nome de família já é um empurrão numa carreira, especialmente no início e no mundo das artes tão difícil de singrar!...  

“Sim, a minha família abriu-me muitas portas, é claro, mas a minha obra tratou de fechar algumas (porque chocou, decepcionou, desagradou a quem delas não se apaixonou) e abriu outras por seu próprio punho. A obra ganha vida própria, sabe?! Qual heterónimo… e faz o que lhe dá na gana. E, não há dinheiro, material, condições e criem uma Obra. Há obras que nascem dentro da mente humana, no desdobramento da sua alma e se exteriorizam pelo material, dinheiro, condições, que o artista tiver disponível… até de lixo podem ser feitas! 

O meu nome foi ficando à sombra e a mando do nome de qualquer das minhas obras… já o da minha família… esse recebeu de braços abertos todos os amigos que a obra congrega…a fama, o prestígio internacional, a fortuna…” e sorriu. 

 

Em tratando-se de um autor português como vê a projecção internacional da sua obra? Como é estar ao lado dos grandes nomes da arte mundial?  

“Português?!”... “Ah, sim!!!..”. Parou… pensou, deve querer dizer quase um deficiente, sofrendo desse complexo de inferioridade anquilosante que impede os portuguese de se verem como iguais aos cidadãos do Mundo? ...mas lançou um: “Possivelmente porque a obra fala por si, ninguém notou que é portuguesa!” e deu uma gargalhada. “A obra tem realmente a sua própria linguagem. A linguagem é o molde das ideias. Alargar a linguagem, criar novas linguagens, decifrar novos idiomas, sejam elas verbais, gestuais, imagens ou sons…. É alargar o espaço de gestação de ideias… é o verdadeiro exercício de Humanidade. Essas novas linguagens não têm fronteiras… não são portuguesas, inglesas ou chinesas… são universais.” 

 

Diz-se muitas vezes que as suas obras têm registos muito diferentes, passou por muitas fases… em qual delas se encontrou verdadeiramente?  

“Em todas. Não compreendo aqueles que têm uma obra constante, sempre coerente. O Homem moderno é vário e não uno, é um heterónimo em cada peça, em cada trabalho, idealmente em cada dia! Diz Pessoa qualquer coisa como isto: viver dois dias iguais é viver a morte no segundo dia, pois o primeiro já foi vivido. Assim… porquê repeti-lo? Viver é experimentar a cada dia um pouco mais do Universo que nos é dado experimentar á nascença, como uma promessa! Porquê não esgotar as possibilidades no tempo que nos é dado? É como entrar num parque de diversões e ficar o tempo todo num só entretenimento. Antes sentarmo-nos na esplanada do parque e observar como as pessoas que se passam e ver como se comportam, vivem, os vários entretenimentos. Antes pensar e intelectualizar as sensações alheias… múltiplas… contraditórias… do que sentir na própria pele uma só sensação, repetida, repetida e repetidamente. Uma obra de vida não é coerente, nem uniforme… se o for não é de um artista.” 

 

Apesar de uma obra imensa, poucas foram as afluências aos seus eventos, foi proveitoso ou economicamente viável viver da sua arte? Alguma vez pensou desistir e fazer outra coisa?  

Bom…foi difícil às vezes…” uma ligeira sombra de vergonha…” mas, nunca entendi de dinheiros… e não é a meu ver o melhor prémio de um artista.” 

 

Então qual é o melhor prémio? O reconhecimento dos críticos? Das massas? A Fama?  

“Todos têm o seu sabor… doce… e acariciam o ego… mas não são o maior dos prémios. A obra não é algo que se faça por imposição do exterior – a demanda por dinheiro, posição social, notoriedade, nem a necessidade do afecto e atenção alheios - a obra é o vício do artista… é a sua necessidade suprema… é a sua adição, totalmente interior e egoísta. Ela existe por si própria mesmo antes de se consumar em matéria…. Ela impõe-se ao seu autor… exige ser expelida das suas entranhas, qual bebé exige sair do ventre materno onde não pode mais ficar. A obra é o heterónimo que exige viver! 

Assim, o prémio supremo do artista é a consumação da Obra… é dar-lhe vida… e deixá-la existir! Lembra-se.. Ayn Rand, “The Fountainhead”... Howard Roark?…  

 

Claro!... Mas e agora, na recta final da sua vida, o que gostaria de fazer para fechar o ciclo, a sua obra?  

“Não me queira fechar já, tão pronto, faz-me temer o pior!” Risos. “Só me poderia fechar a mim, pois a obra nunca pode ser fechada, nem ser coerente, nem ter principio meio e fim. O autor enquanto criador, vivo, neste universo sempre múltiplo, não pode deixar de se multiplicar para se conhecer e conhecer o mundo… o “essencial do real”. Fechar é desistir… é não mais renascer… pior que morrer… é estupidificar! 

 

Então continuará sempre a inovar… a buscar? E para o ano acredita ainda estar cá?  

Eu?.. O que importa?... A minha obra estará. 

 

Ana Teresa Soares Gomes

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Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

O Que Importa 2014 - Texto 1

QUERO SER ENVELHECENTE

 

Eu era doente, nunca pude sentir a adolescência. Não comecei a namorar quando todos começaram, não fui à praia quando todos foram não fui aos bailes dos jovens da minha idade. E fui infeliz, por ser diferente. Eu era doente, e por conta da doença que me deixou debilitada, eu li. Todos os livros da minha vida eu li,em um ano de repouso absoluto . E a vida passou, e eu era adolescente. Gostava da palavra sem nunca poder senti-la, mas sabia que sugeria algo em ebulição. Vinha do verbo adolescer, e chegou nos anos sessenta para nunca mais ir embora . E me marcou, a tal da adolescência.

Agora que estou velha, descobri a palavra envelhecente. Vem do verbo envelhecer, mas não sei por que ninguém quis. Peguei prá mim. Ela também me sugere ebulição, agitação,e mais que tudo,pressa . Já que não fui adolescente quero ser envelhecente, e estou com pressa para viver!

Fiz sessenta anos e a velhice me deixou mais elétrica ainda, e o fato de não ter medo dela, mais feliz também. Só fico preocupada com o ridículo e a sua medida, e porque não dizer com a minha sanidade mental. É que quando fiz quarenta anos estava triste, me olhei no espelho e me vi feia.  Quando fiz cinquenta também estava triste, me olhei no espelho e me vi velha. Mas agora que fiz sessenta e estou muito feliz, me olhei no espelho e levei um susto! Não sei de quem é aquele rosto cheio de rugas que teima em olhar prá mim. Não conheço aquela senhora! Sou uma envelhecente linda, e o espelho não vai me desmentir,mesmo porque não tenho mais tempo para perder com ele. Quero aproveitar a vida até o último minuto e em qualquer situação. A partir de hoje sou uma envelhecente sem freios pelas ruas de Lisboa. Quero fazer tudo que eu nunca fiz, sou jovem na alma, no gestual, no vocabulário e no comportamento. Só no corpo é que não, mas isso é um pequeno detalhe. Quero celebrar a vida com tudo que tenho direito, e que quando a morte chegar me encontre bebada de felicidade, para que eu possa cumprimentá-la cara a cara e dizer "olá iniludível”, como escreveu meu amigo e grande poeta Manuel Bandeira. E que eu também possa planejar com ela minha última grande festa, onde estarão presentes todos os meus amigos. Uma festa muito louca, inesquecível! A começar pela roupa, um vestido longo bem colorido, sandálias de salto alto (sempre quis ter mais dez centímetros), e um colar daqueles enormes, para espantar mau olhado. Óculos escuros, cabelo solto, baton e perfume, e, por favor, nada daqueles algodõezinhos ridículos no nariz e flores em volta do corpo, porque junta mosquito e eu não vou ter como espantá-los. Pintem o caixão de amarelo, e grafitem nele todas as poesias de amor. A música de fundo tem que ser bem alegre, deixa por conta do meu melhor amigo. E quero também que alguém tenha um acesso de riso que contagie a todos, e que venha como uma grande onda de gargalhada. E que depois todos saiam prá comemorar, pois  a vida é bela e a morte também quando se viveu bem.

Estou com pressa, minha amiga está me chamando. Afinal, esperei a vida inteira por ela.

Ainda tenho muitas coisas prá fazer, tenho que correr o tempo agora é meu maior inimigo, e eu descobri tarde demais que a vida é muito curta para ser pequena!

 

Arlanza Crespo

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Sexta-feira, 14 de Março de 2014

O que importa - Prazo alargado

 

O que aprendeu com a vida, os livros, os filmes, os sonhos e as mudanças?

Seleccionaremos as propostas mais fortes e originais, para que sejam apresentadas publicamente pelos seus autores, na Casa Fernando Pessoa, no próximo dia 23 de Abril, às 18h30. Max. duas páginas dactilografadas.

O prazo para a apresentação das propostas é 24 de Março de 2014. Envio: gabrielamaldonado@egeac.pt e inescunha@egeac.pt

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Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014

Testemunhos que celebram a Liberdade

 

Clicar na imagem para ficar a saber como pode participar.

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Informações e contactos

www.casafernandopessoa.pt

Morada:

Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique 1250-088 Lisboa

Tel: 21 391 32 70

@: info@casafernandopessoa.pt

Horário: Segunda a Sábado das 10:00 às 18:00 (última entrada às 17h30)

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